ACERVO DO CARNAVAL

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“A musa em devaneio me inspirou ôô / Encheu meu coração de alegria / Depois da tempestade, a bonança / A esperança de um novo dia / Ôôôôô Oh, quanto esplendor / O sol desponta lindo no horizonte / É primavera no jardim do amor…”

Com esses versos de Nazareno e do saudoso Mato Grosso iniciamos uma série postagens acerca de carnavais passados, dando destaque às agremiações que existem apenas na memória.

O destaque de hoje é a saudosa e tradicional  Sociedade Recreativa e Cultural Os Filhos do Continente (por muitos chamados de “Filhos do Continente”, “Continente”), que durante muitos anos fez parte do carnaval de Florianópolis, principalmente no período em que a agremiação esteve sob a gestão de Walmor Cardoso, conhecido pelo mundo do samba como “Roleta”.  Neste período o próprio nome da agremiação se confundia com o nome de seu presidente.

Era comum dizer “vou desfilar no roleta também”. Observa-se que o “também” era literalmente utilizado, uma vez que todo bom sambista de Florianópolis desfilava em pelo menos duas agremiações. “Os Filhos do Continente” com certeza era a segunda escola de samba de muitos sambistas de Florianópolis.

Walmor Cardoso era casado com a Srª Maurilia Cardoso, mais conhecida como “Dona Lila”, que também exerceu muitas tarefas dentro da escola de samba, inclusive como carnavalesca. Dava gosto de ver o quanto a família toda era envolvida na construção do carnaval, bem como o amor pela agremiação. Isso contagiava os mais próximos que acabavam se voluntariando para ajudar de alguma forma para colocar o “Roleta” na rua.

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Walmor Cardoso “Roleta” e Maurilia Cardoso “Dona Lila” (Arquivo pessoal)

Os Filhos do Continente era uma agremiação democrática: todos desfilavam lá, sem qualquer distinção. Os versos que iniciaram este texto emocionaram o então governador do Estado, Esperidião Amin, pois os referidos versos foram criados para um desfile que acontecera logo após o Estado de SC se reerguer diante das enchentes de Blumenau e que acabaram retratando o momento do Estado.

Eram os bons tempos de um carnaval mais pé no chão, mais comunidade, mais alegre e sem muito “engessamento” da folia.

Por lá passaram muitos nomes que hoje são consagrado no carnaval de Florianópolis: compositores, intérpretes, mestres de bateria, carnavalescos, diretores de harmonia, mestres-salas, porta-bandeiras, aderecistas, enfim um rol de profissionais do nosso carnaval ilhéu. Não cabe nominar os profissionais, mas cada um deles que estiver lendo, conseguirá se encaixar na história da agremiação.

Por muitos anos a agremiação levou para a passarela do samba enredos que teciam críticas ao sistema político. Versos como “E o povo despertou… Foi às ruas e foi à luta /  Cobrar o que o homem prometeu e não deu / A casa, comida, o direito à vida e a dignidade de quem tanto já sofreu” (André Calibrina, Bira Pernilongo, Julio Fofão) ou “E agora? Como é que fica “seu doutor”/ Tanto tempo esperei, finalmente eu votei / A tempestade já passou / Será que a dona liberdade, o respeito e a verdade como a gente sempre quis… Será que a igualdade social, a vergonha e a moral vão reinar nesse país…” (Nazareno e Mato Grosso) deram vez e voz dentro do carnaval para a realidade do povo brasileiro.

Imagina-se quão fértil seria o terreno de inspiração para Os Filhos do Continente nos dias atuais.

Infelizmente “Os Filhos do Continente” não pisa mais na passarela. Desfila apenas nas nossas lembranças como um longo filme. Quem viveu aqueles bons tempos, se fechar os olhos, conseguirá ouvir ainda o Roleta pegando o microfone para dar seu recado antes da largada e vê-lo emocionado com Dona Lila olhando para trás e vendo a escola montada para o desfile…

Digamos que a agremiação não está inativa: apenas dorme! Eis um tempo que não volta, mas se pudermos sempre trazer à tona, nunca cairá no esquecimento!

Esta é nossa singela homenagem à Sociedade Recreativa e Cultural Os Filhos do Continente.

Equipe Na Avenida – Ano VI (equipenaavenida@gmail.com)

Colaboração: FSSom Sonorização e Iluminação (arte – bandeira)

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