Carta do Leitor Edu Aguiar

O Site Na Avenida recebeu a carta do leitor Edu Aguiar, consagrado nome do carnaval de Florianópolis. A carta segue publicada na íntegra. Informamos que o Site Na Avenida é aberto para recebimento de cartas e opiniões dos leitores.

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composicao-samba-letras-enredo-casamentoO valor de um samba enredo. Este é um brado em favor dos compositores desse estilo musical.

Muito se discutem, na atual conjuntura do carnaval, a “estrutura de desfile”, a “festa dos protótipos”, o “cronograma de produção da escola” e outras milongas estéticas e administrativas do gênero. O bem da verdade, todo o conjunto de procedimentos para efetuar um carnaval de bom desempenho deve ser levado em conta. É claro que tudo isso é de extrema relevância para o desempenho de uma agremiação na avenida. Ninguém duvida ninguém contesta. Mas a grande realidade é que, antes de qualquer coisa, uma agremiação é uma escola “de samba”.
Acho que posso repetir ou frisar para melhor ser entendido: não é uma “escola de alegoria”, nem “escola de enredo”, nem “escola de gestão”, nem “escola de estrutura”. É fundamental e visceralmente uma ESCOLA DE SAMBA!  O que eu quero dizer com isto é o seguinte: estamos vivendo uma lógica invertida muito investimento no quadro pintado pelo carnavalesco em detrimento da decomposição musical prestigiada parece tentar invadir o terreno das escolas de samba. Não quero fazer  aqui um debate sobre os enredos e muito menos ofender duas coisas fundamentais na escola de samba: o componente e o compositor. Um enredo visto apenas sob a lógica de sua execução é um enredo limitado. Explico: se um enredo dá boas fantasias, mas não inspira uma ala de compositores e não emociona a comunidade, não é bom enredo. É egoísta demais pensar num enredo que pode dar asas à imaginação do carnavalesco e desprezar a ala de compositores. Converse com os compositores, veja quantos deles estão satisfeitos com as sinopses que andaram recebendo. Claro que estou me referindo aos compositores de verdade, não a uma turma que parece ter nascido junto com esse novo movimento, que só visa o “sucesso” e a “parceria da moda”, sem ter vínculo real com a raiz das escolas. A sinopse que vai para as mãos de um compositor fala muito da forma como a escola o trata. Sinopses confusas, bagunçadas, ou abordando temas frios e sem emoção, denotam um descaso, um desrespeito com a ala dos compositores. É como se os bambas do ofício, ou mesmo os novos valores das quadras, fossem esses músicos a que me referi no início do texto – os “novos astros da MPB”, que cantam qualquer coisinha com duas onomatopeias e saem por aí vendendo milhões (de dejetos musicais) para uma massa hipnotizada. Não. Não é por aí! A escola é de samba! E esse samba se aprende na escola! No momento em que as escolas já definiram seus hinos oficiais, perceberemos a distância abissal entre as que escolheram enredos profundos, arraigados em sua identidade, e as que passearam na “criatividade” e no “patrocínio” (que, como tenho dito, muitas vezes nem é patrocínio: é pura propaganda!). É claro que o desfile não é só samba-enredo. Mas também é claro que não é só o resto. Estrutura sem alma ou alma sem estrutura: nenhum dos dois é válido, mas o que estou falando é que enredo não é relevante apenas por sua execução, mas fundamentalmente por sua concepção. A execução acontece só em fevereiro. A concepção acontece agora: motivam componentes, inspira compositores, emociona torcedores, alavancam legionários… é por meio dela que as coisas acontecem. Infelizmente o samba-enredo ficou submisso a uma visão mercadológica de enredos que poucas vezes o permitem alcançarem seu patamar de dignidade e destaque. Enfim, este é um brado em favor dos compositores. Os únicos capazes de nos resgatar a primazia de ouvirmos um samba-enredo de verdade…

Florianópolis, 11 de outubro de 2017 .

Edu Aguiar.

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