Coluna de Quinta – 100 sambas-enredo inesquecíveis (RJ)

Imperatriz Leopoldinense 1993Hoje a Coluna de Quinta propõe uma viagem pela história do samba-enredo. Por isso, assumiu um formato diferente: é um pequeno guia, uma lista com 100 sambas inesquecíveis. A ideia é que você guarde esta página como um lugar onde terá a certeza de encontrar bons sambas para ouvir. Aceitando um desafio muitas vezes feito por amigos, este colunista selecionou 100 composições que considera marcantes. A tarefa deve se repetir futuramente em outros centros. Começamos pela matriz: o Grupo Especial do Rio de Janeiro.

A partir do primeiro LP oficial das escolas de samba, lançado em 1968, foram selecionados dois sambas de cada ano. Composições de anos anteriores formam a lista “pré-LP”. Para ouvir os sambas, basta clicar em cada título. A seleção não pretende coincidir com os sambas mais conhecidos ou com os melhores desfiles. Você certamente encontrará sambas famosos e se surpreenderá com alguns desconhecidos. Também deve sentir falta de alguns famosos e lamentar que o colunista não deu atenção para aquele samba que “só você” gosta. E provavelmente detestará algumas escolhas, o que é normal. Discordou? Sentiu falta de algum sambaço? Compartilhe sua opinião com nossos leitores deixando um comentário!

A regra criada para a escolha foi desafiadora. É muito difícil selecionar apenas 2 sambas por ano. Inevitavelmente, grandes obras ficaram de fora. Em 1976, quase todos os sambas poderiam ser citados, tamanha a qualidade da safra. Não foi possível incluir o belíssimo samba do Império Serrano sobre as sereias recentemente reeditado, nem o emocionante Poemas de máscaras e sonhos da União da Ilha. No ano de 1998, numa difícil decisão entre três belíssimos sambas, Chico Buarque da Mangueira não entrou na lista. O conflito se repetiu na maioria dos anos. Por isso, vale lembrar: quem fez esta lista não pretende ser dono da verdade e do bom gosto. Provavelmente, se a lista fosse feita daqui a um mês, haveria várias mudanças, pois a percepção auditiva depende também do estado de espírito do ouvinte.

A lista tem, na verdade, 106 sambas. Depois da enorme dificuldade em selecionar apenas 2 obras de cada ano, ficou impossível condensar a era pré-LP em menos de 13 sambas. As escolas mais citadas são a Imperatriz Leopoldinense (14 vezes), a Vila Isabel (13 vezes), Mangueira e Portela (10 vezes). Algumas sequências de três citações seguidas chamaram atenção: a Estácio foi lembrada de 1985 a 1987 e a Portela de 1973 a 1975. A Imperatriz emplacou 3 sequências: 1970-72, 1979-81, 1995-97. Apenas a Vila Isabel foi lembrada quatro vezes seguidas, com a fantástica lista de 2010 a 2013.

Afaste as cadeiras e abra espaço para dançar, coloque o fone de ouvido ou ligue as caixas no volume máximo! Imagine-se em anos mágicos como 1969, quando na mesma noite desfilaram Heróis da Liberdade, Iaiá do Cais Dourado e Bahia de todos os deuses… embarque nessa viagem… e boa audição!

Pré-LP
Estação Primeira de Mangueira 1948 – Vale do São Francisco
Império Serrano 1949 – Exaltação a Tiradentes
Império Serrano 1951 – 61 anos de República
Estação Primeira de Mangueira 1955 – As quatro estações do ano
Estação Primeira de Mangueira 1956 – O grande presidente
Acadêmicos do Salgueiro 1960 – Quilombo dos Palmares
Acadêmicos do Salgueiro 1963 – Chica da Silva
Império Serrano 1964 – Aquarela brasileira
Império Serrano 1965 – Os cinco bailes da história do Rio
Império Serrano 1966 – Glórias e graças da Bahia
Portela 1966 – Memórias de um sargento de milícias
Unidos de Vila Isabel 1967 – Carnaval de ilusões
Estação Primeira de Mangueira 1967 – O mundo encantado de Monteiro Lobato

1968 
Unidos de Lucas – Sublime Pergaminho
Acadêmicos do Salgueiro – Dona Beja, feiticeira de Araxá

1969
Império Serrano – Heróis da Liberdade – este samba merece as duas versões: clique aqui para ouvir na voz de Wander Pires
Unidos de Vila Isabel – Iaiá do Cais Dourado

1970
Portela – Lendas e mistérios da Amazônia
Imperatriz Leopoldinense – Oropa, França e Bahia – ouça também a a versão original do LP de 1970 clicando aqui

1971
Salgueiro – Festa para um rei negro
Imperatriz Leopoldinense – Barra de ouro, barra de rio, barra de saia

1972
Imperatriz Leopoldinense – Martim Cererê
Unidos de Vila Isabel – Onde o Brasil aprendeu a liberdade

1973 
Em Cima da Hora – O saber poético da literatura de cordel
Portela – Pasárgada, o amigo do rei

1974
Portela – O mundo melhor de Pixinguinha
Mocidade Independente – A festa do divino

1975
Portela – Macunaíma, herói de nossa gente
União da Ilha do Governador – Nos confins de Vila Monte

1976
Em Cima da Hora – Os sertões
Unidos de Lucas – Mar baiano em noite de gala

1977
União da Ilha do Governador – Domingo
Império da Tijuca – O mundo de barro de Mestre Vitalino

1978
Beija-Flor de Nilópolis – A criação do mundo na tradição nagô
União da Ilha do Governador – O amanhã

1979
Estácio de Sá – Das trevas ao sol, uma odisseia dos karajás
Imperatriz Leopoldinense – Oxumaré, a lenda do arco-íris

1980
Imperatriz Leopoldinense – O que é que a Bahia tem?
Unidos de Vila Isabel – Sonho de um sonho

1981
Imperatriz Leopoldinense – O teu cabelo não nega
Portela – Das maravilhas do mar, fez-se o esplendor de uma noite

1982
Império Serrano – Bumbum paticumbum prugurundum
Mocidade Independente – O Velho Chico

1983
Unidos da Ponte – E eles verão a Deus
Unidos da Tijuca – Brasil, devagar com o andor que o santo é de barro

1984
Unidos de Vila Isabel – Pra tudo se acabar na quarta-feira
Acadêmicos do Salgueiro – Skindô skindô

1985
Mocidade Independente – Ziriguidum 2001, um carnaval nas estrelas
Estácio de Sá – Chora chorões

1986
Unidos da Tijuca – Cama, mesa e banho de gato
Estácio de Sá – Prata da Noite – Grande Otelo

1987
Unidos de Vila Isabel – Raízes
Estácio de Sá – O tititi do sapoti

1988
Unidos de Vila Isabel – Kizomba, a festa da raça
Estação Primeira de Mangueira – Cem anos de liberdade, realidade ou ilusão

1989
Imperatriz Leopoldinense – Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós
União da Ilha do Governador – Festa profana

1990
Estação Primeira de Mangueira – E deu a louca no barroco
Portela – É de ouro e prata esse chão

1991
Mocidade Independente – Chuê, chuá, as águas vão rolar
Unidos do Viradouro – Bravo, Bravíssimo! Dercy, o retrato de um povo

1992
Estácio de Sá – Paulicéia Desvairada, 70 anos de modernismo
Mocidade Independente – Sonhar não custa nada ou quase nada

1993
Acadêmicos do Salgueiro – Peguei um ita no Norte
Estácio de Sá – A dança da Lua

1994
Unidos de Vila Isabel – Muito prazer! Isabel de Bragança ou Drumond Rosa da Silva, mas podem me chamar de Vila
Unidos do Viradouro – Tereza de Benguela, uma rainha negra no Pantanal

1995
Imperatriz Leopoldinense – Mais vale um jegue que me carregue, que um camelo que me derrube… lá no Ceará!
Portela – Gosto que me enrosco

1996 (*)
Mocidade Independente – Criador e criatura
Imperatriz Leopoldinense – Imperatriz Leopoldinense honrosamente apresenta: Leopoldina, a Imperatriz do Brasil
Império Serrano – E verás que um filho teu não foge à luta

1997
Acadêmicos do Grande Rio – Madeira-Mamoré, a volta dos que não foram, lá no Guaporé
Imperatriz Leopoldinense – Eu sou da lira, não posso negar

1998
Unidos do Viradouro – Orfeu, o negro do carnaval
Beija-Flor de Nilópolis – O mundo místico dos caruanas nas águas do Patu-Anu

1999
Imperatriz Leopoldinense – Brasil, mostra sua cara em… Theatrum Rerum Naturalium Brasiliae
Beija-Flor de Nilópolis – Araxá, lugar alto onde primeiro se avista o sol

2000
Estação Primeira de Mangueira – Dom Obá II, rei dos esfarrapados, príncipe do povo
Unidos da Tijuca – Terra dos Papagaios… navegar foi preciso!

2001
Paraíso do Tuiuti – Um mouro no quilombo, isto a história registra!
Acadêmicos do Grande Rio – Gentileza, o profeta saído do fogo

2002
Estação Primeira de Mangueira – Brazil com Z é pra cabra da peste, Brasil com S é nação do Nordeste
Unidos do Porto da Pedra – Serra acima rumo à terra dos coroados

2003
Unidos da Tijuca – Agudás, os que levaram a África no coração e trouxeram, para o coração da África, o Brasil
Unidos do Viradouro – A Viradouro canta e conta Bibi, uma homenagem ao teatro brasileiro

2004 
São Clemente – Boi voador sobre o Recife – Cordel da galhofa nacional
Imperatriz Leopoldinense – Breazail

2005
Beija-Flor de Nilópolis – O vento corta as Terras dos Pampas – Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Guarani, sete povos na fé e na dor, sete missões de amor
Imperatriz Leopoldinense – Uma delirante confusão fabulística

2006
Unidos de Vila Isabel – Soy loco por ti, América! A Vila canta a latinidade
Beija-Flor de Nilópolis – Poços de Caldas derrama sobre a Terra suas águas milagrosas – do caos inicial à explosão da vida, água, nave-mãe da existência

2007
Unidos do Viradouro – A Viradouro vira o jogo
Estação Primeira de Mangueira – Minha pátria é minha língua, Mangueira meu grande amor, meu samba vai ao Lácio e colhe a última flor

2008
Beija-Flor de Nilópolis – Macapaba, equinócio solar: viagens fantásticas ao meio do mundo
Imperatriz Leopoldinense – João e Marias

2009
Unidos do Viradouro – Vira-Bahia, pura energia
Mocidade Independente – Mocidade apresenta: Clube Literário Machado de Assis e Guimarães Rosa, estrelas em poesia

2010
Unidos de Vila Isabel – Noël, a presença do poeta
Beija-Flor de Nilópolis – Brilhante ao sol do novo mundo – do sonho à realidade, Brasília, a capital da esperança

2011
Estação Primeira de Mangueira – O filho fiel, sempre Mangueira
Unidos de Vila Isabel – Mitos e histórias entrelaçadas pelos fios de cabelo

2012
Unidos de Vila Isabel – Você semba lá… que eu sambo cá! O canto livre de Angola
Portela – …E o povo na rua cantando… é feito uma reza, um ritual

2013
Unidos de Vila Isabel – A Vila canta o Brasil celeiro do mundo… água no feijão que chegou mais um!
Portela – Madureira… onde o meu coração se deixou levar

 (*) Como toda regra tem sua exceção, constam 3 sambas de 1996. Não houve maneira de desempatar: são três sambas preciosos, três clássicos de suas escolas, três sambas que dividem minha preferência pessoal, três ótimos desempenhos na avenida. Em alguns anos, quando havia três ou mais sambas e dois seguiam o mesmo estilo, eliminava um destes para manter a variedade de estilos. Em 1996, nem isto aconteceu: são três obras muito diferentes entre si! Tentei, caro leitor, mas não consegui chegar a uma decisão que parecesse correta.

Para consultar as letras dos sambas, seus compositores e a ficha técnica dos desfiles, visite a seção Carnavais do site Galeria do Samba.

 

As escolas mais citadas
Imperatriz Leopoldinense – 14 (1970, 1971, 1972, 1979, 1980, 1981, 1989, 1995, 1996, 1997, 1999, 2004, 2005 e 2008)
Unidos de Vila Isabel – 13 (1967, 1969, 1972, 1980, 1984, 1987, 1988, 1994, 2006, 2010, 2011, 2012 e 2013)
Estação Primeira de Mangueira – 10 (1948, 1955, 1956, 1967, 1988, 1990, 2000, 2002, 2007 e 2011)
Portela – 10 (1966, 1970, 1973, 1974, 1975, 1981, 1990, 1995, 2012 e 2013)
Império Serrano – 8 (1949, 1951, 1964, 1965, 1966, 1969, 1982 e 1996)
Mocidade Independente – 7 (1974, 1982, 1985, 1991, 1992, 1996, 2009)
Beija-Flor de Nilópolis – 7 (1978, 1998, 1999, 2005, 2006, 2008 e 2010)
Acadêmicos do Salgueiro – 6 (1960, 1963, 1968, 1971, 1984 e 1993)
Estácio de Sá – 6 (1979, 1985, 1986, 1987, 1992 e 1993)
Unidos do Viradouro – 6 (1991, 1994, 1998, 2003, 2007 e 2009)
Unidos da Tijuca – 4 (1983, 1986, 2000 e 2003)
Unidos de Lucas – 2 (1968 e 1976)
Em Cima da Hora – 2 (1973 e 1976)
Acadêmicos do Grande Rio – 2 (1997 e 2001)
Império da Tijuca – 1 (1977)
Unidos da Ponte – 1 (1983)
Paraíso do Tuiuti – 1 (2001)
Unidos do Porto da Pedra – 1 (2002)
São Clemente – 1 (2004)

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10 comments

  1. LINDO, MARAVILHOSO, NADA MELHOR DO QUE REVIVER O QUE REALMENTE FOI BOM, PORQUE O BOM SAMBA NÃO PODE MORRER, E RELEMBRAR É REVIVER….
    PARABÉNS PELA IDEIA…

  2. Show de bola! Os meu recentes preferidos (Mocidade -Guerreira- 2008 e Grande Rio -Amor, amazonense-) não entraram, mas acho que é um dos casos em que só eu gosto dos sambas em questão hahaha.

    Gostei da lembrança do Tuiuti 2001!

    No mais, concordo totalmente com a Vila presente de 2010 pra cá. São sambas que tem ‘algo a mais’ ao meu ver, fugindo da mesmisse de sambas recentes que não são fracos, são corretos demais.

    Aguardo para o ranking de Sampa! Abração

  3. Gosto e gosto, mas tem sambas que deveriam estar no lugar de alguns como Portela 1982, 83,84,87.
    Grande Rio com o samba da Lua, Mangueira 1983,84, Imperatriz 1982, Imperio Serrano 1983, Beija Flor 1995, etc… Tem uns que nao sei como estão aí como Portela 1990, Unidos da Tijuca 1986, Estácio 1986, 87, Mangueira 1988, 1990. Seria melhor colocar por décadas por até a década de 1990, no século passado os sambas eram obras primas a partir dos 2000 ficaram escassos.

  4. A lista é excelente, principalmente anos 60 com essa trilogia do Império 64/65/66 que é d+! O ano de 69 é o melhor dueto. As escolhas dos anos 70 tb são excelentes! Os sambas da Imperatriz de 99 e 2004 não tem condições de estarem nessa lista, nem em nenhuma outra de grandes sambas. O da BF de 2004 por exemplo é muito superior. Portela ou Mangueira em 84 são melhores que o do Salgueiro. Mas isso tudo também é gosto pessoal..rs. O importante é: Parabéns pelo belo trabalho!

  5. NÃO SERIA O TAL BLOGUEIRO TORCEDOR DA ESCOLA DE SAMBA IMPERATRIZ???
    FICO AQUI COMIGO A PENSAR COMO PODE SER SE EU TORCEDOR DO VASCO FOSSE TÉCNICO DA SELEÇÃO É LOGICO QUE OS MEUS JOGADORES SERIAM ESCOLHIDOS…

  6. Trabalho maravilhoso, parabéns! Independente de gostos pessoais, é muito válido, faz a mente
    trabalhar e nos remete a sambas que as vezes a memória guardou mas não esqueceu; apenas
    ficou naquele cantinho especial e que agora aflora com tudo! Excelente, recordar é viver!

  7. Enfim consegui fazer minha nova listagem, agora com 100 sambas, poderão ser conferidas figurinhas fáceis em qualquer listagem como “Os Sertões”, “Aquarela Brasileira”, “Heróis da Liberdade”, mas também serão encontradas relíquias quase esquecidas como “Rapsódia de Saudade” (Mocidade de 1971) e sambas menos conhecidos do grande público como “Xingu, O Pássaro Guerreiro” (Tradição de 1985), “O Curioso Mercado Ver o Peso” (Engenho da Rainha de 1984) ou “Tradição de uma Raça” (Arranco de 1985). Algumas semelhanças com sua listagem. Os 100 Maiores (Melhores) Sambas Enredo da História do Carnaval http://amahet.blogspot.com/2017/02/os-100-maiores-melhores-sambas-enredo.html

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