Coluna de Quinta – a agonia do Carnaval 2013

Agonia
O carnaval de 2013 agoniza há semanas e sofreu uma parada cardíaca.  Estamos na expectativa para saber se o desfibrilador será ligado ou será dado um tiro de misericórdia em nossos sonhos. Muito pouco resta a acrescentar, pois os impasses que envolvem a transição são conhecidos dos leitores, inclusive pela cobertura deste blog. Não podemos absolver ninguém por essa “brincadeira” com nossa cultura, com nossa paixão, com nossa arte. Porém, é sempre válido lembrar que, até 31 de dezembro, o gestor máximo do Executivo Municipal é Dário Berger. A vida não reiniciará em 1º de janeiro, pois ela não parará. A vida seguirá e o Município apenas mudará de gestor. Qualquer versão que aponte para o encerramento de atividades em 2012 e um “recomeço” em 2013 é uma caricatura no pior estilo de “O Bem Amado”, antigo folhetim da Globo.

Manifestação
Está marcado para as 11 horas desta quinta-feira um novo ato, com concentração em frente à Catedral Metropolitana. Espera-se a adesão maciça de blocos carnavalescos e escolas de samba. O horário é ingrato para a maioria dos sambistas, mas se deve à maior cobertura da imprensa, inclusive com a promessa de links ao vivo. É importantíssima a presença de cada amante do carnaval desta cidade, dentro de sua possibilidade, para uma manifestação pacífica que pretende mostrar a importância das agremiações carnavalescas para suas comunidades.

Papo de Samba
Grupo Musical da Protegidos da Princesa, com o apoio do Departamento Femino, promove no próximo domingo (9), a partir das 11 horas, o 1º Papo de Samba.  Evento reunirá intérpretes antigos e da atualidade, numa confraternização musical que promete grandes momentos. O local é o Clube de Subtenentes e Sargentos (cabeceira continental da Ponte Hercílio Luz) e o ingresso custa R$10, com direito a porção de strogonoff.

Festival de bobagens
É assustadora a quantidade de besteiras proferidas sobre os impasses relativos ao carnaval. Cacau Menezes, este sábio, este pensador florianopolitano, a quem a RBS dedica em seu principal telejornal um bloco com finalidade até hoje desconhecida, afirmou que “no passado, um prefeito não fez o carnaval e ninguém morreu por isso”. Não, Cacau, ninguém morreu! Da mesma maneira, ninguém morrerá se não houver Natal, Reveillon ou a Procissão do Senhor dos Passos. Ninguém morrerá se a presidenta Dilma cassar a concessão da RBS e mandar o Exército fechar a emissora (não é uma proposta, antes que algum corneteiro se atreva). Porém, as ações de um político não devem se guiar apenas pelo “ninguém morrerá”. Uma cidade é mais que saúde, educação e segurança. A citação é batida, mas sempre válida: “a gente não quer só comida, a gente quer bebida, diversão e arte”. Parece-me que “uma cidade mais humana” era, inclusive, o slogan de campanha de César Souza Jr., que esboçou uma alegria concordante ao ouvir a frase do vovô adolescente, logo reprimida pela presença das câmeras.

Ninguém morreu?
Descontinuar desfiles que se realizam ininterruptamente desde 1999 pode não matar ninguém, mas mata algo. Há uma cultura carnavalesca cultivada anualmente, com a formação de ritmistas, com o aperfeiçoamento de trabalhos de alegorias e fantasias, com uma fidelidade e envolvimento cada vez maior dos componentes com as escolas. Morrerá um investimento da cidade em tudo isso, desmobilizando as agremiações, desvalorizando o produto e gerando, desde já, imensas dificuldades para 2014. Os mais antigos, que tiveram que recomeçar em 1999, após dois anos sem desfiles, certamente sabem do que estou falando. Morrerá o sonho de comunidades. Morrerá um pouco do espaço de entretenimento, de cultura, de lazer, de sociabilidade, onde tantas famílias constroem partes importantes de suas vidas.

Festival de bobagens (2)
O blog de Moacir Pereira é outro espaço que costumeiramente recebe, na sessão de comentários, meia dúzia de “gênios da raça” desterrenses. Estes descobriram uma solução milagrosa: está faltando dinheiro para saúde, educação e segurança, então acabemos com o carnaval! As escolas que aprendam a se sustentar! Cada um que faça sua folia com o seu dinheiro! É isso mesmo! Em vez de cobrar a aplicação correta do dinheiro – que existe em quantidade farta! – para todas as áreas, vamos crucificar as escolas de samba!

Contraponto
Chega a ser dispensável rechaçar essa visão grotesca, mas é importante fazê-lo, pois é uma conscientização que deve ser feita por cada um de nós, todos os dias. Nenhum sambista deve se calar ao ouvir esse tipo de bobagem. As dimensões sociais, culturais e artísticas de nossas agremiações devem ser sempre lembradas e exaltadas. Quantos jovens e famílias trocam as ruas pelos espaços de lazer e aprendizado musical das escolas de samba? Quantos trabalhadores confeccionam fantasias, alegorias, adereços? Quanta renda direta e indireta é gerada? Para quantos munícipes e turistas os ensaios e eventos pré-carnaval são diversão e lazer? A cidade que queremos é feita apenas de médicos, professores, policiais, asfalto e concreto?

Contraponto (2)
As igrejas são isentas de pagamento de impostos em todo o território nacional. Isso gera algumas situações curiosas, como instituições de ensino superior de caráter confessional (geridas pro clérigos) que mantêm  templos em seus campi, visando tal isenção. Se fecharmos as igrejas, ninguém morrerá. Tal isenção é dinheiro a menos para saúde, educação e segurança. Seria justo, portanto, mandar que cada um vá rezar com o próprio dinheiro? Não, não seria! Afinal, somos uma sociedade, não um amontoado brutal de humanos que precisa receber somente manutenção (saúde e educação) e controle (segurança) do Estado.

Tapera em festa
Foi um sucesso o V Galeto do Acadêmicos do Sul da Ilha. O evento reuniu mais de uma centena de pessoas da comunidade. Se a participação especial foi de Tuca Maia, novo intérprete da União da Ilha da Magia, coube ao ótimo Nellipe apresentar o samba do bloco para o próximo carnaval e, depois, interpretar sambas clássicos e atuais, como o da Vila Isabel para 2013, com seu verso inicial que diz: “O galo cantou…”. Como a ave era o prato principal – delicioso, por sinal – soou como uma ironia refinada. Cobri a festa, mas os dias agitados vividos pelo nosso carnaval me impediram de postar as fotos. Devo, não nego… pago quando puder!

Lições
Devemos tirar lições dos dias conturbados que vivemos. Se a atitude da Prefeitura é irresponsável, cabe constatar que causaria maior comoção popular caso as escolas de samba ocupassem espaço efetivo na vida da cidade. A fragilidade das agremiações é tamanha que soa utópico cobrar projetos sociais mais efetivos, gestões modernas, mobilização ao longo do ano etc. No entanto, são avanços que precisam ocorrer, no máximo, a médio prazo. As escolas de samba precisam se repensar. Fosse eu presidente de qualquer escola, chamaria as pessoas mais envolvidas e apaixonadas para uma assembleia informal, de reflexão, para apontar erros, acertos e novos caminhos. Os dias são difíceis e algo novo precisa acontecer. É um momento importante para a reconstrução das escolas. Caso contrário, o horizonte é o pior possível.

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2 comments

  1. e poderíamos acrescentar ainda, que ninguém morrerá se não houvesse “Planeta Atlântida”, segundo a RBS : A maior festa do planeta, mas que desde Dezembro veicula chamadas intermitentes.

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