Coluna de Quinta – A morte do avarento

“Coração, por que tremes? Vejo a morte / Ali vem lazarenta e desdentada / Que noiva! E devo então dormir com ela? / Se ela ao menos dormisse mascarada!”
(Álvares de Azevedo – trecho do poema “O poeta moribundo”)

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Morte do Avarento, tela do pintor flamengo Hieronymus Bosch (c. 1450-1516)

Cliquem na imagem ao lado e ampliem a tela que Hieronymus Bosch pintou no final do século XV. O quadro mostra um avarento em seu leito de morte, numa complexa simbologia típica da obra deste pintor, relacionada a literaturas como o Ars Moriendi (Arte de Morrer), livro de devoção medieval que aponta a avareza como uma das tentações finais e descreve o comportamento dos demônios à volta da cama dos doentes. Percebam a figura do avarento moribundo. À sua esquerda, um anjo aponta para uma cruz inundada pela luz que atravessa o único orifício na parede do quarto. O ambiente é pequeno e causa certa claustrofobia no espectador. O avarento, porém, não dá atenção ao anjo e pouco se preocupa com a morte que lhe fita, esquelética, atrás de uma porta. Embora um pouco atordoado e dividido, está voltado para o que realmente lhe interessa: um demônio sorrateiro que surge em meio a uma cortina, oferecendo-lhe dinheiro em troca de sua alma (ou roubando o dinheiro, conforme outras interpretações). Aos pés da cama, a figura do avarento aparece alimentando uma espécie de cofre habitado por homens-rato.

O moribundo
Escrevi na última edição desta coluna acerca da agonia do carnaval 2013. Pois bem, parece que o moribundo insiste em não morrer – ou quem tem a seringa nas mãos insiste em não praticar a piedosa eutanásia – e gera uma situação muito estranha, como na tela em que o moribundo ao mesmo tempo agoniza e abastece seu cofre com moedas para as criaturas em seu interior. No que se refere ao poder público municipal, todas as possibilidades de apoio estão esgotadas. O que há de concreto, no momento, é a liberação da passarela e um aceno da Tractebel para garantir o apoio financeiro de sempre. Mesmo que ocorresse uma enxurrada repentina de dinheiro nas contas das escolas – o que não ocorrerá! – a situação seria muito difícil.

Detalhe: o avarento alimentando o cofre habitado por homens-rato.
Detalhe: o avarento alimentando o cofre habitado por homens-rato.

Trabalhos adiantados
Vejam que mimo esta matéria do jornal Notícias do Dia! Quatro das cinco escolas do Grupo Especial declaram estar com 50% ou mais do carnaval pronto. Para surpresa de todos – até mesmo de alguns carnavalescos! – estão todas num andamento similar ao da União da Ilha da Magia, que até então acreditávamos ser a única escola com os trabalhos adiantados. Como acredito pudicamente nesses dados, estou otimista quanto a essas agremiações. Caso se providenciem recursos e os desfiles ocorram, não haverá desculpa. Exceto a Protegidos da Princesa, que declara não ter iniciado os trabalhos de barracão, todas as outras agremiações terão a obrigação de apresentar belos desfiles – 50% é um bom patamar para dezembro! – e competir diretamente pelo título contra a UIM. Ou seja: comunidades, guardem esta matéria e cobrem!

A alma penada
Diante do cenário indefinido, não podemos saber exatamente se o carnaval 2013 é um moribundo agonizante ou uma alma penada que, apesar de morta, vaga pela cidade, em estranhas movimentações de um esboço de pré-carnaval, sobretudo por parte dos heróicos batuqueiros de várias agremiações. Parece muito imprudente dizer que num período de um mês, com aportes financeiros muito inferiores aos anos anteriores, seria possível apresentar algo digno. Sinto um calafrio sempre que o Zeca Machado declara que está “otimista quanto à realização do evento”. 2013 já era!

Detalhe: a cruz na única abertura na parede do quarto
Detalhe: a cruz na única abertura na parede do quarto

Prudência e consistência, a cruz da salvação
É cada vez maior o número de pessoas que, a exemplo deste escriba, acreditam que um caminho mais correto seria utilizar os próximos meses para o fortalecimento interno das escolas, com a realização de eventos e uma maior inserção na vida da cidade. Paralelamente, a LIESF poderia formular um projeto consistente para o Carnaval 2014, de maneira a atrair parcerias com a iniciativa privada e, em parceria com o poder público, tornar o pré-carnaval e os desfiles mais atraentes para os turistas e mais envolventes para a cidade.

A César o que é de César
O assunto já foi debatido à exaustão, mas sempre parece salutar lembrar: a organização do carnaval de 2013 é, necessariamente, feita ao longo de 2012 e compete, em grande parte, à gestão de Dário Berger. O prefeito eleito comete um erro, mas é outro: jogar a cidade contra o povo do samba. Retratar o carnaval como “desperdício de dinheiro” enquanto há “outras prioridades” é algo perigoso, que antecipa anos difíceis. Afinal, do jeito que as coisas estão, teremos “outras prioridades” durante muitas décadas.

Política(s)
É óbvio que o carnaval de Florianópolis não atrai turistas para a cidade! Não há peças publicitárias e políticas de divulgação da cidade e do estado como destinos turísticos em que o carnaval de Florianópolis é inserido de maneira relevante. Os ensaios técnicos e os desfiles na Praça XV não estão no calendário da cidade. A reforma do sambódromo foi feita na contramão da história: enquanto o Rio derrubou camarotes para erguer uma estrutura mista e ampliar o espaço para o público, Florianópolis utilizou um espaço virgem para erguer um horroroso prédio de camarotes. Para piorar, a venda de ingressos é pífia: o “turista imaginário” teria que aguardar a semana dos desfiles para descobrir onde e quando será a venda de ingressos e torcer para conseguir uma vaga após passar no mínimo uma noite na fila. É muito simples dizer que as escolas não dão retorno para a cidade, como insinuam insistentemente os porta-vozes das elites em alguns conglomerados de comunicação. Os desfiles, que são de alto nível e estão entre os melhores fora do eixo RJ-SP, não conseguirão, por si só, atrair turistas nessas condições.

Detalhe: a morte fita o avarento escondida atrás da porta
Detalhe: a morte fita o avarento escondida atrás da porta

Dinheiro público
Não há, em qualquer cidade do Brasil, desfile de escola de samba de qualidade sem a participação do poder público, inclusive através de subsídios financeiros. Nem mesmo o Rio de Janeiro é exceção, ao contrário do que se tem comentado equivocadamente em blogs e colunas de política. O que ocorre em outras cidades – não em todas, infelizmente – é uma relação mais ampla, dinâmica e saudável com o poder público, envolvendo também a iniciativa privada e, mais do que isso, com planejamento que garante a estruturação das escolas e, em contrapartida, maior retorno social, cultural, turístico etc. Dizer que o carnaval pode “se bancar sozinho” é uma baboseira, mas é possível caminhar rumo a um impacto menor nos cofres públicos e a uma relevância maior das escolas de samba para a população.

Política(s) (2)
As festas, as manifestações populares, a cultura, enfim, os momentos de celebração comunitária e tudo aquilo que ativa nossa memória coletiva e nossos laços comuns dão sentido à vida numa cidade. A “cidade mais humana” não se faz só de prédios, creches e postos de saúde – e há orçamento abundante para tudo isso! Os museus, por exemplo, pouco atraem turistas para Florianópolis. Algum troglodita do poder ousaria ameaçar fechá-los?

A morte do avarento
Edu Aguiar, autor de tantos enredos e sambas marcantes da Embaixada Copa Lord, escreveu em meu Facebook aquela que acredito ser a frase da semana: “Os espinhos que feriram mortalmente o carnaval de Florianópolis foram produzidos através dos tempos pelos arbustos que as próprias Escolas de Sambas ajudaram a plantar.”

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2 comments

  1. Parabéns Willian!!! Sou obrigado a concordar contigo!!! Não vejo saída para o carnaval 2013 das Escolas de Samba.Acho que o carnaval de 2014 começa por uma reestruturação da LIESF. Mas no meu entender o que acarretou tudo isso foi a briga da Protegidos-LIESF não aceitando o Caramuru. Doa a quem doer mas é esta minha opinião.Se nada desta picuinha tivesse acontecido o Prefeito Dário estaria, durante o ano, recebendo a LIESF e os Presidentes normalmente para o diálogo. Se o Prefeito não agiu certo é outro assunto, mas ficou provado que “quem paga o banquete escolhe o cardápio”!!!Que fique claro que não estou dizendo que o Dário tem razão!!! Apenas digo que a LIESF trocou os pés pelas mãos!!! Eu já estou esperando para ver o que vai acontecer para 2014.

  2. Desfilo na Coloninha desde 1996 quando tinha 8 anos. Adoro desfilar, adoro o clima pré-carnaval com ensaios na praça xv, passarela, nos bairros, etc. Embora tenha adoração pelo desfile – além da Coloninha saio na Copa Lord e já sai na Protegidos e vou nos ensaios das 5 escolas – acho melhor focar realmente em algo grande para 2014. É com tristeza que escrevo isso, mas não vejo tempo hábil para um desfile digno em 2013, pois até o momento quase nada foi feito (falar em 50% é sacanagem) e desfilar sem o brilho e grandiosidade dos anos anteriores seria triste e até desmotivante.

    Hoje vemos escolas como a minha Coloninha dever mundos e fundos por causa de um desfile lindo em virtude dos 50 anos, sem nem ter apresentado a prestação de contas. Não quero mais ver isso e fingir que há crescimento e profissionalismo, coisa que passa longe das 4 escolas exceto a UIM.

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