Coluna de Quinta – Há algo perigoso em curso. Ou: Eles querem demolir o sambódromo!

EscombrosHá um conjunto de tendências muito perigosas em curso na cidade de Florianópolis. Longe de apontar uma teoria conspiratória ou de afirmar que tais tendências são planejadas, peço ao leitor que acompanhe atentamente e faça, na sessão de comentários do site ou do Facebook, sua própria conexão entre os fatos.

Carnaval cancelado
Já foi exaustivamente discutido neste blog e nesta coluna o cancelamento do carnaval de 2013. O processo foi perverso. A mídia local, porta-voz das elites, se uniu a representantes do Poder Público para jogar a população contra as escolas de samba, tratadas como “desperdício de dinheiro”. Absurdos foram afirmados, desde irrelevância para o município até pouca atratividade turística, além de argumentos falaciosos sobre a transferência do chamado “dinheiro do carnaval” para a saúde e educação, algo que até hoje não se viu demonstrado. Oras, o retorno social de um espaço de cultura e lazer que as escolas de samba são para as comunidades – para muitas pessoas, a única opção durante meses – é evidente! Embora a escola de samba não tenha, devo lembrar, finalidade turística, o potencial para este tipo de atividade é óbvio, apesar de tratado pifiamente pelo Município e pelo Estado. Não é oferecida qualquer condição para que um turista saiba da existência, se interesse, consiga se programar para o pré-carnaval, comprar ingressos e assistir aos desfiles. O modelo precisa ser revisto e isto não cabe às agremiações.

Os números da secretária

Foto: Jorge Lautert
Secretária de Turismo – Maria Claudia em audiência Publica sobre carnaval.


Em audiência pública sobre o carnaval na Câmara de Vereadores, Maria Claudia Evangelista Pereira, secretária de turismo de Florianópolis, apresentou os números do carnaval de 2013 como um grande sucesso. Ao que parece, o discurso oficial segue reforçando a visão de que as escolas de samba são irrelevantes para a cidade. Uma comunidade não é feita de números, por mais importantes que sejam, secretária! No perfil divulgado quando seu nome foi confirmado no secretariado, Maria Claudia tem, entre outros antecedentes, seis anos como Diretora Executiva do Florianópolis Convention e Visitors Bureau, entidade definida em seu site como “privada, sem fins lucrativos e mantida e administrada por dirigentes das empresas associadas”. Crê-se, portanto, que é uma pessoa com boa circulação entre o empresariado e, no mínimo, conhecedora de seus interesses. De alguém com seu currículo, posso esperar muitas coisas, mas ingenuidade não é uma delas. Não há em seu histórico qualquer ligação com as importantíssimas áreas de Cultura e Esporte, também sob responsabilidade de sua pasta. Teria César Souza Jr. ingenuamente esquecido disto ou a escolha foi calculada para uma priorização do turismo sob a ótica empresarial, colocando sob seu jugo as atividades culturais e esportivas de Florianópolis?

Foto: Petra Mafalda
Foto: Petra Mafalda

O projeto tresloucado de César
Em 9 de junho deste ano, a comunidade recebeu com choque um conjunto de planos do prefeito que não foram suficientemente esclarecidos durante a campanha ufanista que o elegeu. Entre outras ambições, há a pretensão de remover o Centro de Convenções (CentroSul) e a Passarela Nego Quirido para o aterro do Saco dos Limões e Costeira, construindo duas marinas e um bulevar onde hoje fica o sambódromo. A construção de marinas é uma demanda arduamente defendida pelos empresários do turismo, especialmente para a atração de classes abastadas para a capital. As informações a respeito são vagas e o novo sambódromo dependeria de liberações do Governo Federal. Sua conclusão, provavelmente, demoraria anos, talvez décadas.

A interdição do sambódromo
Há alguns meses, entrevistamos o presidente da Liesf, Zeca Machado, na sede da entidade, localizada nos camarotes da Passarela Nego Quirido. O dirigente, na época, já apontava para a falta de manutenção e problemas estruturais do edifício. Não sou engenheiro, mas as condições das varandas dos camarotes, por exemplo, eram assustadoras. Entretanto, nada foi feito. Só agora, exatamente um dia antes de um grande evento que seria realizado no local (a parada de 7 de setembro), o sambódromo foi interditado, causando grande repercussão e debates quanto às condições da Passarela, seus custos de manutenção e eventuais valores de reformas. Fala-se sobre um possível custo de R$5 milhões e questiona-se a ociosidade que – vejam só! – ocorre por má gestão do Poder Público Municipal. Novamente, a população é jogada contra as escolas de samba, desta vez contra a existência de um espaço vital para seus desfiles, que só é mal utilizado devido à inércia da paquidérmica Prefeitura Municipal de Florianópolis. Se tanto se questiona o potencial turístico do carnaval, não podemos esquecer que um evento cujos pacotes são vendidos há meses corre riscos: o Folianópolis, que acontecerá no feriadão de 15 de novembro. Que os problemas sejam solucionados e se garanta a segurança dos foliões!

Os carnavais de 2014, 2015, 2016…
Não afirmo nem repudio a ideia de que tudo isso seja uma ação orquestrada. O que pretendo demonstrar é que há, sim, tendências perigosas em curso e que podem, a médio prazo, aniquilar nossas escolas de samba. Os próximos passos parecem óbvios, com dois desdobramentos possíveis: ou se dirá que não há dinheiro para realizar os desfiles e reformar o sambódromo, com a reforma sendo feita em 2014 e o carnaval – quem sabe, talvez… – em 2015; ou os reparos serão feitos em caráter emergencial, com dispensa de licitação, o que quase sempre é prejudicial ao interesse público. Cabe lembrar que o modelo de financiamento do carnaval em parceria com a iniciativa privada ainda é uma ideia muito vaga. Nada de consistente foi apresentado até o momento. Estamos em setembro e não há sequer perspectiva de compra de materiais, que sempre demoram a chegar, para a trabalhosa confecção dos desfiles.

Uma máxima que aprendi
Durante a campanha eleitoral de 2012, César Souza Jr. se apresentou à comunidade com a imagem de defensor da cultura local e parceiro do carnaval. Como se diz, “andava pra cima e pra baixo” com uma bateria de escola de samba a tiracolo. Certa vez, ouvi um raciocínio cujo autor não me lembro, infelizmente. Dizia que, na história, na literatura, no cinema e em muitas áreas, o público tem fascínio pela traição e repúdio pelo traidor. Lembre-se disto, prefeito!

 

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4 comments

  1. Eu ainda estou apostando em desfiles em volta da Praça XV com camisetas iguais para as escolas, sendo diferenciadas apenas nas cores. Quando eu disse um dia que joguei a toalha para o carnaval de Florianópolis e que Joaçaba tem melhores desfiles que na capital é exatamente por um detalhe: no fim dos desfiles eles sabem que os desfiles do próximo ano verdadeiramente acontecerão. Lá eles buscaram a capacitação de mão de obra. Do jeito deles pelo menos têm o prazer de desfilar cada qual pela sua escola de samba. O problema de Florianópolis é simples, mas ninguém quer aceitar: temos dirigentes que não apostam em capacitação; temos uma história de escola de samba intimamente ligada com a política partidária (e isso é histórico, ainda mais num tempo em que a cidade era apenas dividida entre amantes de duas grandes escolas, fato este que se arrastou pelos anos e deixou marcas fortes nas diretorias e conselhos). O fato é: ainda que se diga “teremos carnaval”, metade da verba repassada será para o pagamento de dívidas enormes,comprometendo a qualidade dos trabalhos, inclusive em razão do tempo. Foi-se o tempo que se colocava escola de samba na rua com apenas dois meses de antecedência. Hoje a qualidade necessária para o espetáculo demanda tempo. E isso já não temos mais. Já nem quero mais falar em “pires na mão”. Agora o ponto crucial: somos recheados de pessoas vaidosas. Pessoas que vestem suas calças brancas e se acham os mais importantes da cidade. Que não podem ver um flash ou uma câmera ligada que ficam fazendo graça. A imagem pessoal e as vaidades já estão escondendo as cores do pavilhão. O fino trato com seus trajes deveria ser para demonstrar o orgulho de defenderem uma escola de samba e não para ficarem em evidência no meio de todos e recebendo tapinhas (nem sempre verdadeiros) nas costas. No fundo o atual estado em que se encontra o carnaval da cidade é mero reflexo do perfil das pessoas que frequentam as gestões. Salvo raríssimas exceções, as quais tenho o meu respeito pela história e contribuições desinteressadas para o carnaval.

  2. Pra onde vai o dinheiro arrecadado dos eventos feitos durante o ano na passarela Nego Querido? Arrancadão, Shows da Igrejas evangélicas, micaretas e Folianópolis?
    Será que esses eventos são de graças e só cobram das Escolas de Samba de Florianópolis? ALÔÔÔÔÔÔ CESINHAAAAAA!!! ACORDA MÔ FILHO!!!!

  3. Dificilmente conseguirei acrescentar algo mais ao pontual texto do Willian Tadeu. Apenas, jogar no meio da discussão, que não vai ficar por aqui, minha experiência e opinião sobre a remoção da passarela nego-quirido: Gente,, eu concordo!! E acho que tenho o direito de deixar aqui meu depoimento, pois, tive a felicidade_na época (1989), de inaugurá-la, como carnavalesco e, de fazer, talvez o último em 2012. Em 89 o dito sambódromo nada mais era do que a fixação definitiva das arquibancadas que atendiam ao carnaval da Av. Paulo Fontes, numa maratona anual de ‘monta-desmonta’. Muito se questionou, já naquela época por que não as fixar lá mesmo, mas discursos do tipo: “vai competir com o complexo arquitetônico da cidade, impedindo inclusive que se possa ver a ponte Hercílio luz” ou : “o aterro nasceu pra isso” não deixou. Bom, o que se viu depois foi um projeto urbanístico que nunca funcionou, a despeito da maestria de seu autor Roberto Burle marx, posto que, ouvir dizer ‘a boca pequena que ele o fez sem ver e conhecer o local. Soma-se a isso o fato de que no Brasil, as coisas nascem pela metade_e dê graças quando for pela metade! Pois bem, as arquibancadas formam fixadas no terreno onde funciona o atual ‘sambódromo’ , para aqueles que gostam de se sentir no Rio de Janeiro ou, ‘passarela’ para os que não gostam da comparação com o carnaval carioca e, em tese resolvia-se o problema dos custos do ‘monta-desmonta’, mas afastava-se o carnaval do centro da cidade, do terminal urbano e do povo. tudo por que, volto a dizer, TUDO AQUI NASCE PELA METADE! Mas era 89 nem existia o túnel Antonieta de Barros ainda. A cidade cresceu, em fluxo de carros, não em malha viária (continuamos com uma ponte pra entrar e outra pra sair), e como em todo projeto que se preza, faltou considerar e incluir nesse crescimento a logística de um carnaval que se desejava também maior. Ou seja, deu-se as costas a este segmento cultural, como foi dado aos projetos de ocupação do aterro para atividades desportivas, lembram-se disso? Voltemos á 2012 o ano do último carnaval. Eu estava na ‘nego quirido’ acabando meu trabalho com as alegorias na concentração das escolas de samba, quando precisei ir em casa, em capoeiras, tomar banho, para então voltar para o desfile da minha entidade que seria a primeira a entrar na avenida as 21hs. Na volta, entrar na ponte que dá acesso a ilha percebi o INFERNO _e eu gosto de carnaval, tá? Imaginem quem não gosta! As 5 pistas da ponte, abarrotadas de carros se transformam em 2 antes do elevado Dias velho, obrigando todos que estão chegando na cidade, ou aqueles que estão saindo via aeroporto, afinal é verão, feriadão de carnaval numa época de fluxo homérico, sendo redirecionada para avenida beira mar norte e/ou Padre Roma, tudo por que a AV. Gustav Richard passa a servir como concentração dos integrantes das escolas. Ali tive a clareza de que: ou a era sambódromo chegava ao fim, ou o nosso carnaval não pode almejar crescer mais. Todos crescemos ouvindo que tudo na vida deve ter projetos. E sei que eles devem existir. Agora, o como, quando, quanto tempo pra se erguer um bom projeto, ai é outro capítulo! Talvez tenhamos sim, que começar tudo do zero. A questão é: será que dará tempo? Digo isso lembrando de um exemplo emblemático corrido nos Estados Unidos na década de 80 com um grande Parque temático que resolveu fechar as portas, no auge para uma mega reforma, no intuito de atender a demanda que se apresentava, mas a demora foi tanta, para reerguer o novo e mega projeto, que quando este acabou o tempo também havia passado e o público (a geração), já era outro e não fazia mais ‘a cabeça’ esse tipo de entretenimento. Ou seja, ele nasceu morto!! O carnaval e a cidade teem um dilema pela frente, sim! E para fechar a reflexão deixo uma frase de meu pai que dizia: ‘Quando a cabeça não pensa, o corpo é quem paga a conta”

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