Coluna de Quinta – O Conselho Deliberativo te representa?

charge - conselho ProtegidosHá exatamente 1 ano, o Blog Tamborim, da jornalista Ângela Bastos, publicou a polêmica charge acima. O alvo da crítica era específico: o loteamento do Conselho Deliberativo da Protegidos da Princesa com nomes que pouco representam para os componentes da escola, como parentes de celebridades e políticos, e sua ausência nas reuniões e eventos da agremiação. O que mudou de lá pra cá? Ampliando o foco, a discussão pode ser estendida para as demais escolas de samba de Florianópolis, utilizando a máxima da campanha viral na internet contra o Deputado Marco Feliciano: o Conselho Deliberativo te representa?

Deliberar
O nome dessa instância fundamental dentro da organização de uma escola de samba deixa clara a sua função. Deliberar é tomar uma decisão após pensar, analisar ou refletir. O Conselho Deliberativo deve ser, dentro da escola de samba, o órgão que promove discussões sobre temas importantes e sugere (ou decide, quando lhe cabe) o que fazer. Como a escola de samba deve ser de todos os seus componentes, o ideal seria que os conselhos fossem um mosaico da diversidade de pensamentos dentro da agremiação. No entanto, parece unanimidade entre componentes de diversas escolas: se você quiser saber o que a escola pensa, não vá ao Conselho Deliberativo.

Representação e legitimidade
Os quadros de sócios fazem falta à maioria das escolas de samba e não é apenas pelo dinheiro da mensalidade. Vejam a diferença entre os processos eleitorais de Coloninha e Consulado. Enquanto na escola do Continente apenas 28 pessoas – com todas as suas glórias e histórias de trabalho pela instituição – definiram o novo presidente, a Consulado passa por uma disputa que é democrática em seu sentido mais amplo. É um momento para os componentes debaterem, reverem posicionamentos, pensarem e decidirem sobre o que querem para os próximos anos. Nas outras, infelizmente, a escolha do novo presidente é sempre um processo fechado e carente de debates. Na hora da decisão, pouco se sabe efetivamente sobre os projetos dos candidatos, quando há mais de um. É um procedimento legal, mas que deixa a desejar em legitimidade perante o conjunto da escola.

Reserva moral
Não, as escolas não devem ser entregues simplesmente nas mãos dos quadros de sócios. O Conselho Deliberativo deve servir como reserva moral. Caso contrário, qualquer ave de rapina endinheirada poderá pagar para associar centenas de amigos e “comprar” a escola. Para evitar isto, o Conselho deve estar lá, ativo e altivo, com as figuras mais ilibadas do grêmio. Talvez o ideal fosse a eleição presidencial seguir modelo parecido ao de algumas universidades públicas, onde servidores, professores e alunos formam três grupos diferentes de eleitores, com peso proporcional de 33,3% para cada. Isto geraria equilíbrio entre o Conselho – menor numericamente, mas composto pela “reserva moral” da escola – e o quadro de sócios, que tenderia a representar a maioria numérica esmagadora.

Composição
A ideia de “reserva moral” não pode ser confundida com a formação de um museu vivo. É necessário que os conselheiros sejam pessoas preocupadas com os rumos da escola, antenadas aos anseios dos componentes e aos acontecimentos do carnaval. A partir do momento em que não há mais estes interesses, existem outros espaços a serem ocupados. A Velha Guarda é uma galeria de honra. O Conselho não deve ser. Por maior que seja a contribuição de um indivíduo para a história da escola, sua participação no Conselho deixa de ser pertinente quando não acompanha mais o cotidiano da agremiação. Na Consulado, há uma solução interessante para buscar o equilíbrio: parte dos conselheiros é eleita pelo quadro de sócios, outra parte é formada por conselheiros natos, como ex-presidentes.

Renovação
Não, minha gente! O blogueiro não enlouqueceu e não pretende propor limite de idade para os conselheiros. Na Protegidos da Princesa, temos alguns ótimos exemplos de componentes de idade mais avançada que continuam acompanhando os acontecimentos da escola com total interesse e dedicação. Para citar um exemplo, lembro do veteraníssimo Sr. Marinho. Na mesma Protegidos, há conselheiros que poucos componentes sabem quem são. Se não participam mais do dia-a-dia da escola, é hora de promover uma renovação e liberar os assentos para pessoas mais interessadas. É assustador pensar que, recentemente, o presidente Moacyr Gomes admitiu ter se visto obrigado a aceitar continuar no cargo por falta de opções.

Perspectiva de mudança
Faz falta a perspectiva de mudança dentro de uma escola de samba. Há aqueles que querem alçar vôos pelo status, mas não é a esses que me refiro. Há quem queira contribuir de fato para a escola. A abertura de quadros de sócios e instâncias representativas tem muito potencial para gerar um ciclo virtuoso de renovação de ideias. Quem não conhece pessoas que querem ajudar suas escolas, têm qualificação e conhecimento, mas não têm espaço para isso? Quem nunca viu um bom presidente exercer um mandato inferior à sua qualidade pessoal por estar cercado pelos diretores errados? A caminhada gradativa rumo à renovação pela qualidade seria saudável, qualificando os principais quadros das escolas, alavancando mudanças nas diretorias e permitindo que as pessoas certas ocupassem as funções certas. Com as devidas contrapartidas, todas as escolas poderiam ter quadros de sócios de boas dimensões. O sujeito que tem uma carteirinha de sócio geralmente se sente “mais dentro” de um grupo, mais disposto a defendê-lo e a atrair novos seguidores. É o caso dos times de futebol, por exemplo. Contudo, parece que isto interessa a pouca gente, surpreendentemente.

O que mudou?
Não sei! A única mudança conhecida na Protegidos da Princesa neste último ano é que a lista de conselheiros foi retirada do site oficial da escola. Como a secretaria foi desativada, tentei contato através do Facebook oficial há algumas semanas. O diretor de comunicação, Sione de Jesus, “passou a bola” para o presidente do Conselho, Rodrigo Beirão, que não se manifestou. Talvez a omissão dos nomes seja um alento para seus componentes. Leonel Pavan, Ângela Amin, Gilmar Knaesel, Rafael Kuerten… eram estes alguns representantes da escola mais antiga de Florianópolis há 1 ano (ou ainda são?). Caso alguns nomes tenham recebido “cartão vermelho”, como afirmou Ângela Bastos, está difícil descobrir quem entrou no lugar. Dário Berger também fazia parte da lista (ou ainda faz?). Só falta juntar César Souza Júnior ao time, para perpetuar na história do Conselho a dupla que, numa tabelinha, acabou com o carnaval de 2013.

Pela lógica…
Ninguém elege os conselhos. Estes elegem os presidentes, que elegem o presidente da Liga. No fim das contas, se mal somos representados dentro das próprias escolas, qual é o sambista que se sente representado pelo tal do Zeca Machado, presidente da LIESF? E agora, viram como toda a situação que expus é perigosa e desagregadora?

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One comment

  1. Prezados boa tarde!

    Quando colocamos o fio gelado da navalha na carne, não é tão somente porque somos malucos, ou suicidas!
    O inteligente comentário do Willian Tadeu, nos obriga a pensar que tipo de administração queremos em nossas Escolas de Samba.
    O texto reflete pensamentos muito discutidos entre as alas mais jovens das escolas, mais, todavia não repercute no interior destas, devido ao engessamento de ouvidos dos mais antigos.
    Termo pessoas ilustre em nosso quadro de Conselheiros em nada adianta, muitas vezes contribui contra uma melhor administração, contra uma melhor composição de diretoria, contra o desenvolvimento da Escola durante o desfile e contra outras muitas coisas.
    Penso também que, o fortalecimento do quadro social, é muito importante para qualquer entidade. Na pior das hipóteses poderia honrar os pagamentos de pequenas dividas com as mensalidades ou anuidades dos associados quem sabe a escola teria como manter aberta a sede durante todo ano.
    Certo ainda é que quem paga quer ver seu dinheiro revertido em alguma coisa, quem vota pode ser votado! Ai toda a discussão volta à estaca zero.
    Poderíamos ainda considerar que a abertura do quadro social traria sangue novo, pensamentos novos quem sabe poderíamos ter um Conselho pro ativo, quem sabe assim não teríamos necessidade de ocultar os nomes dos Conselheiros, pessoas que só aparecem no dia do desfile vestidos de ternos verde/vermelho, para posa para as fotos e atrapalhar a harmonia da Escola.
    Finalizando, tenho certeza que Willian Tadeu não tece este comentário simplesmente para ofender e/ou irritar algumas pessoas. O faz para chamar a atenção, para reafirmar que quando não há mais ninguém com vontade de assumir a presidência da mais antiga Escola da cidade é por que alguma coisa de muito errada esta acontecendo. Diante disto só há uma coisa a fazer: Cortamos nossa própria carne!

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