Coluna de Quinta – O fim da festa no arraiá

Comissão de Frente da Vila Isabel em 2013
Comissão de Frente da Vila Isabel em 2013

A última semana de março balançou as estruturas do carnaval carioca. A Vila Isabel teve seu time desfeito. Não sobrou pedra sobre pedra no castelo da campeã do carnaval de 2013. Transferidos para a Unidos da Tijuca, saíram o mestre-sala Julinho, a porta-bandeira Rute e o intérprete Tinga. Para a Beija-Flor, foi o coreógrafo da comissão de frente, Marcelo Misaillidis. Sem rumo definido, desligou-se da escola uma das mentes mais brilhantes da história dos desfiles, a carnavalesca Rosa Magalhães.

Fim de festa
A comoção causada pelas mudanças não se limitou às redes sociais. Tomei contato com vários amigos cariocas, inclusive “vilaisabelenses”, que confirmaram o impacto das notícias na capital do samba. Parte disto, sem dúvidas, é provocado pelo que a Vila Isabel tem representado nos últimos carnavais. É como se o mundo de sonho fosse desmanchado, o encanto fosse desfeito e um pouco do “feitiço da Vila” voltasse a adormecer, deixando um vazio no carnaval. É perceptível o clima de fim de festa no arraiá.

Retrospecto
Embora o título anterior da Vila Isabel seja de 2006, há um retrospecto que justifica a mística recente em torno da escola. Após uma bela apresentação exaltando o Theatro Municipal do Rio de Janeiro, a Vila Isabel escolheu para 2010 cantar Noel Rosa em seu centenário. Estranhamente, muitos efeitos das alegorias e o som da avenida tiveram sérios problemas que prejudicaram a escola, uma das favoritas no pré-carnaval. De qualquer maneira, o samba de Martinho da Vila se diferenciou dos demais e foi uma das pedras atiradas na água do samba-enredo para gerar uma onda de renovação nos anos seguintes.

Rosa Magalhães marcou a era de desfiles impecáveis da Imperatriz Leopoldinense na década de 1990. O desenvolvimento apurado de seus enredos sempre foi um ponto forte de seu trabalho.
Rosa Magalhães marcou a era de desfiles impecáveis da Imperatriz Leopoldinense na década de 1990. O desenvolvimento apurado de seus enredos sempre foi um ponto forte de seu trabalho.

Rosa Magalhães
Para 2011, a contratação da carnavalesca Rosa Magalhães, conhecida pela profunda pesquisa e teor cultural até mesmo de enredos patrocinados, aumentou a badalação dos “puristas” em torno da azul-e-branco. No ano seguinte, Rosa, em um de seus melhores trabalhos, arrebatou o mundo do samba com um desfile leve e diferente sobre Angola. Era uma nova leitura de África na avenida, fugindo do lugar-comum que muitas vezes torna esta temática cansativa. Para muitos, merecia o campeonato, que só veio em 2013, quando a simplicidade do homem do campo foi embalada por um samba que dava indicativos de que se tornaria inesquecível desde sua divulgação.

Formação
Li um pensamento que julgo pertinente ao carnaval de Florianópolis. Vem de Gabriel Mello, paulistano, torcedor da Vai-Vai e figura frequente nos fóruns de carnaval. Refere-se à dificuldade para se formar e lapidar novos profissionais. Rute, porta-bandeira, demorou alguns anos para se consolidar e gabaritar na apuração. Tinga foi uma aposta bem feita pela Vila Isabel, que superou as críticas iniciais e hoje é um intérprete de ponta. Enquanto algumas escolas buscam este caminho, outras preferem a busca insaciável pelo resultado imediato. Mesmo que apresentem desfiles maravilhosos, fica a dúvida: onde foi parar a função da escola de samba como escola formadora de sambistas, profissionais do carnaval, etc? É preferível apresentar o melhor carnaval que podemos fazer ou o melhor carnaval que podemos pagar para que os outros façam por nós?

Frase da semana
Portanto, é de Gabriel Mello a frase desta semana: “Formar em casa, lapidar, exercer a função de escola de samba, ninguém exerce. É mais fácil olhar a mulher do vizinho, que tá gostosa agora, e apresentar o contra-cheque…”

Eleições
Consulado e Unidos da Coloninha passam por eleições nas próximas semanas. Embora este blogueiro torça por alguns resultados, não se arrisca a fazer apostas. Ambas as disputas são muito complicadas. É bom lembrar que, muitas vezes, os critérios dos eleitores envolvem mais os relacionamentos pessoais do que os projetos para o futuro da instituições. Além disso, quem se alia a todo mundo pode não agradar a ninguém… ou ter sérios problemas para harmonizar posições opostas, se eleito.

Que beleza, Evandro Malandro!
Amigo, colega ou parceiro de muitos compositores de Florianópolis, Evandro Malandro deu um verdadeiro “show” de talento como intérprete da Imperador do Ipiranga, em São Paulo. O cantor acaba de subir mais um degrau importante em sua carreira. É o novo intérprete da Renascer de Jacarepaguá, escola que esteve no Grupo Especial em 2012 e sempre realiza grandes desfiles no Acesso. Evandro formará dupla com Diego Nicolau, ex-Viradouro. Rogerinho deixou o microfone da escola após dez carnavais.

Novo time
A Vila Isabel não dormiu no ponto e fez contratações de peso. Após perder os talentos que formou, trouxe da Unidos da Tijuca o casal Marquinhos e Geovana, formado na Mangueira. Da verde-e-rosa, contratou o carnavalesco Cid Carvalho, que desenvolveu na Vila o carnaval de 2007, Metamorfoses. O novo intérprete é Gilsinho, que brilhou nos últimos anos pela Portela.

Alegoria da Vila Isabel, campeã do carnaval 2013.
Alegoria da Vila Isabel, campeã do carnaval 2013.

O luxo, o samba e a simplicidade
Boa parte dos meus amigos que foram ao Desfile das Campeãs do Rio de Janeiro repetiu com convicção uma bobagem: a Vila Isabel só venceu o carnaval por causa do samba-enredo. Afirmo aos leitores que é uma bobagem, como já disse a cada um deles, porque não há fundamentação para tal afirmação. Na verdade, esse tipo de observação é um triste indicativo de que, mesmo nas mentes abertas da nova geração, ainda há o culto à cangalha, à parafernalha, ao gigantismo. A Vila Isabel foi campeã porque promoveu um massacre que sequer foi refletido nas notas, pois a diferença deveria ser muito maior. Foi um senhor desfile de escola de samba. Se o samba fosse outro, provavelmente não seria campeã. Porém, também se a plástica fosse outra perderia o brilho e o título. Tudo se completou. O samba foi, sim, decisivo, mas não venceria o carnaval se a Vila tivesse seguido a receita do luxo exacerbado ou das coreografias hollywoodianas. Nem só de requinte e acrobacias se faz carnaval! Que o diga a própria Vila, campeã em 1988 com o inesquecível Kizomba, a festa da raça.

Um campeonato memorável
A beleza da campeã reside na capacidade de traduzir a simplicidade do enredo, formar quadros na avenida, compor “momentos estéticos” para cada setor. Quando havia o luxo ou a coreografia, era de maneira expressiva, diretamente vinculada à essência do enredo. Como poucas vezes nos últimos 10 anos, o chamado enredo teórico (a história imaginada) foi o espelho perfeito do enredo representado (a história mostrada iconograficamente em alegorias e fantasias). Tudo isso embalado por um samba magistral. É claro que aparecerá alguém com o argumento falacioso e dirá: “você não estava lá para ver”. Adianto que a falácia mais estúpida é aquela que desqualifica o autor em vez de seus argumentos. Aliás, eu estava em São Paulo e refleti muito sobre o nosso carnaval. Muita coisa precisa mudar, de aspectos culturais a regulamentares. E o desfile da Vila? Bem, ele jamais aconteceria na Florianópolis atual, não apenas por questões financeiras. São assuntos para as próximas quintas-feiras…

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One comment

  1. Rapaziada, parabéns pelo novo layout e pelo conteúdo postado. A cidade não podia ficar sem este espaço dedicado ao Carnaval da Ilha. Abração

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