Coluna de Quinta – Os novos postes de uma cidade torta

ponteAs pontes Colombo Salles e Pedro Ivo Campos foram inauguradas, respectivamente, em 1975 e 1991. A segunda é uma repetição do projeto da primeira. Seu desenho e sua construção refletem os ideais de uma cidade que se pretendia moderna. Trinta e oito anos depois, terão suas silhuetas deformadas: os marcantes postes retos darão lugar a estruturas curvadas. Que metáfora perfeita para esta cidade!

Na história da arquitetura mundial, as grandes obras podem ser reconhecidas por 2 ou 3 traços. Imaginem o Congresso Nacional, a Ponte Hercílio Luz e a Torre Eiffel. Agora tentem representá-los, mentalmente, com apenas 3 traços. Não foi difícil, certo? Pois bem, é evidente que as pontes Colombo Salles e Pedro Ivo não são lá, digamos, monumentos memoráveis. Contudo, se tentássemos representá-las em poucas linhas, certamente se fariam presentes sua leve curva, suas colunas de sustentação e as fileiras de postes, retos, impávidos, que há anos se recusam a bailar com o vento sul alvissareiro que lhes beija a face.

Agora, resolveram mudar. Num projeto orçado em R$1,6 milhão, toda a iluminação será substituída. Quem entra na Ilha de Santa Catarina pela Ponte Pedro Ivo Campos já sente a diferença: sua tinta branquinha e seu desenho curvado descaracterizam as pontes. Nossas velhas companheiras estão com uma maquiagem cafona! E o pior: concentrada demais. Sim, são mais postes! Quanto mais postes, pior é a visão em diagonal. Para ver o mar sendo menos importunado pelas estrovengas, o sujeito tem que virar a cabeça totalmente para o lado. Alguém lembra dos debates intensos quando se tentou aumentar a altura dos guard rails há alguns anos? Quanto tempo perdido!

Aqueles postes que emolduravam os auspícios de uma imagem de progresso ficaram no passado. Florianópolis não é a cidade da retidão. As linhas retas representam firmeza, seriedade. Patrícia Poeta usava cabelos cacheados e blusas com babados para apresentar o Fantástico, um programa mais descontraído. Quando foi para o Jornal Nacional, alisou o cabelo e passou a vestir trajes mais retos. Fátima Bernardes fez o contrário, ao deixar a bancada do JN e apresentar um programa matinal. Os idealizadores dos novos postes estão certos. Florianópolis é a cidade da curva.

É também a cidade que se curva… a qualquer mando e desmando, a qualquer falácia, a qualquer cervejaria babaca, a qualquer campanha massificadora da imbecilidade. Observem bem os novos postes: eles estão curvados, cabisbaixos, obedientes. Parecem compadecidos, solidários àquela manada de homens e mulheres que, sob suas luzes, enfrentam diariamente engarrafamentos insuportáveis. Nossos postes – os que restam – são os últimos resquícios de uma cidade que ainda não se transformou totalmente em um parque de diversões boboca. Não deixe o poste morrer, não deixe o poste acabar!

Qualquer dia, substituirão os breezes de concreto do Prédio das Secretarias por ondinhas espelhadas. E, por que não!?, adornar a Avenida Gustavo Richard com aqueles postes de peixinho, típicos de cidades-deserto que ficam lotadas no verão.  Os postos da Polícia Militar na cabeceira das pontes poderiam ser substituídos por portais de golfinhos. Não ficaria uma gracinha? Os turistas adorariam, seria super fofo!

Sim, o que nos interessa são os turistas! Lembrem-se que o carnaval de 2013 foi um sucesso, na visão da Setur, conforme anunciado na Audiência Pública sobre o tema na Câmara de Vereadores. Números, números e mais números. A cidade gastou menos – será mesmo? – e recebeu mais. E o que é esse mais? São os turistas! Não temos que produzir cultura nem arte… temos que produzir turismo! E o que os “bons turistas” querem? Qualquer coisa, “só não querem que lhes falte a danada da cachaça!” A rede hoteleira, as rotas gastronômicas, as boates… ah, como nossa cidade anda pra frente!

Aqui, a tudo se aceita e se curva. Tortas como os novos postes são uma Coperca e uma Setur que misturam a discussão do carnaval dos foliões bêbados à discussão do carnaval das escolas de samba. Torta foi toda a argumentação promovida por colunistas de importantes meios de comunicação, numa campanha de linchamento das escolas de samba. Valores tortos: os financeiros distorcidos e os culturais deturpados. É também o poste uma metáfora interessante de nossos dias, minha ilha da velha figueira e meu Brasil varonil: quem sai de um cargo elege um poste em seu lugar; os pais elegem os filhos como postes; os secretários sem caneta são postes. São os dias dos postes tortos! Viva o poste!

E o carnaval? O carnaval piu! Mas não tem importância, né!?

 

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One comment

  1. Bela matéria, clara, verdadeira, e nessas voltas chegas ao ponto
    que todos nós amantes do carnaval, queremos saber, qual a importância
    cultural? Será que nossos governantes valorizam a arte popular? Tem
    para eles o Carnaval alguma importância? A pergunta que não quer calar!!!

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