Em resposta ao editorial do Notícias do Dia

ND

Em resposta ao editorial publicado pelo jornal Notícias do Dia, em 09 de novembro de 2017, trazemos as seguintes ponderações para o debate sobre os desfiles das escolas de samba de Florianópolis, mencionado no artigo “Folia mais profissional”.

Vejamos:

Inicia o editorial trazendo a seguinte afirmação:

“Todos os anos, nos meses que antecedem o Carnaval, volta à tona a surrada discussão acerca do financiamento público do desfile das escolas de samba. Em Florianópolis, com o aperto financeiro da prefeitura, a fonte que sustentava a folia, aberta até poucos anos atrás, fechou definitivamente – ou, na melhor das hipóteses, mostra-se agora bem menos generosa.”

Neste primeiro parágrafo, é lamentável a constatação do editor quando aborda a constante discussão acerca do financiamento público dos desfiles com os entes públicos. É válido lembrar que assim como a Fenaostra, o Festival de Teatro Isnard Azevedo, a “famigerada” corrida de Kart das Estrelas – que acontecia em terras de hoteleiros granfinos -, e das famosas peixadas, feijoadas e caldinhos da Ilha de famosos jornalistas e políticos da cidade, contam com o apoio do financiamento público da cultura de Florianópolis.

Resta-nos saber diferenciar neste primeiro ponto quais atrações são realmente pontos de cultura de nossa cidade, e quais são meramente eventos de entretenimento para busca de lucros por empresas e profissionais do ramo.

Creio que “a fonte que sustenta a folia”, também já sustentou muito evento particular da cidade, que nada contribuiu para o engrandecimento cultural de nossa gente.

Segue o editor afirmando que:

“Nem que houvesse fartura de recursos se justificaria a extrema bondade do período em que as escolas viviam do dinheiro oficial. São tantas as demandas em éreas como a saúde, a educação e a segurança que soa estranho tirar verbas de um caixa enfraquecido pela crise econômica para aplicar num evento que pouco agrega em termos de conhecimento e outros ganhos para a sociedade.”

Neste segundo parágrafo do artigo publicado, o editor trata os recursos destinados à cultura como atos de “bondade”, como se estes não tivessem respaldo na Constituição Federal, na Constituição do Estado de Santa Catarina e na Lei Orgânica do Município.

Alegar que as demandas da área de saúde, educação e segurança são impeditivos para investimento na área cultural, é a famosa desculpa de político demagogo. Assim como fez Cesar Souza Júnior quando cancelou os desfiles das escolas de samba de Florianópolis em 2013, alegando que usaria os recursos para construção de creches e/ou postos de saúde.

Apenas trago à lembrança que a “economia” não gerou nenhum benefício para a saúde, educação ou segurança da cidade. Já questionei o ex-prefeito, e este até o momento, nunca informou sua realização com tamanha economia. No mais, continuar com esse tipo de discurso demagogo, barato, sem fundamentação jurídica é a famosa “conversa pra boi dormir”, com intuito de enganar a população, criando um discurso populista com falsas promessas.

Pontuo aqui para reflexão sobre as fontes dos recursos, uma nota publicada pelo CBN Diário[1], publicado em 06 de fevereiro de 2017, pelo jornalista Leandro Lessa que diz no título: “Florianópolis conta com 1,4 milhão do Governo estadual para o carnaval”.

Pergunto: Seriam os desfiles das escolas de samba evento de prejuízo para a cidade e o estado? Quanto arrecada o município com o carnaval?

Respondo: Em entrevista publicada no Diário Catarinense[2], em 10 de fevereiro de 2016, o então ex-prefeito Cesar Júnior, que havia cancelado os desfiles de 2013, disse o seguinte sobre a realização do carnaval de 2016: “— Conseguimos fazer todos os eventos, com redução de custos e apoio da iniciativa privada. Inicialmente acreditamos que são cerca de R$ 5 bilhões injetados na economia da cidade, com gastos como hospedagem e alimentação, e acreditamos que isso ainda se reverta em R$ 100 milhões em arrecadação nos próximos meses — falou CESAR SOUZA JÚNIOR”.

No terceiro e último parágrafo, traz o editor:

“O ideal seria que as escolas – que hoje organizam o Carnaval – buscassem outras formas de financiamento dos desfiles, que exigem muito planejamento, empenho e talento para assegurar um espetáculo que encante a plateia. A própria passarela que sedia a festa pode ser o palco de eventos que arrecadem dinheiro para cobrir os custos das escolas em sua luta pela primazia do aplauso do público e pelas melhores notas dos jurados. A profissionalização dos desfiles, incluindo todas as etapas que os antecedem, é o mais recomendável nesses tempos em que se privilegia o bom uso do que é público – e, portanto, do povo.”

A busca por outros meios de financiamento dos desfiles das escolas de samba acontecem, porém, assim como tantos outros, estas também são vitimas das burocracias governamentais.

Vejamos:

Para uma escola de samba poder arrecadar dinheiro da iniciativa privada, precisa-se de um projeto sólido. Para que isto aconteça, a primeira coisa que se precisa ter é a confirmação do evento. Para que o evento seja confirmado, somente a Prefeitura da cidade pode conceder esta informação, disponibilizando a data agregada aos eventos da cidade. O que normalmente acontece é que a prefeitura é a primeira a informar aos quatro cantos que não sabe se haverá ou não os desfiles das escolas de samba. Se você fosse um empresário, patrocinaria uma escola de samba sem saber se a Prefeitura irá realizar ou não o evento?

Até onde sabemos, a passarela que é “do samba”, não pertence às escolas de samba. Todos os recursos dos aluguéis arrecadados pela passarela são de poder exclusivo da Prefeitura. Nós, meros mortais, sequer sabemos os valores cobrados para os eventos particulares, as arrecadações e o destino dos valores arrecadados pelo município através dos alugueis da passarela.

De fato, por muito tempo já é solicitado que a passarela do samba seja administrada pela Liga das Escolas de Samba de Florianópolis, porém, os gestores municipais que passaram até o momento pela Prefeitura, fazem “ouvidos de mercadores”, evitando o repasse administrativo do prédio para que a Liga pudesse arrecadar e fomentar seus próprios eventos e desfiles.

É realmente fácil falar em captação de recursos privados, principalmente quando se fala em grandes cervejarias, porém, sabemos da dificuldade que é buscar recursos para este evento. Grande parte das dificuldades é proporcionada pela própria prefeitura, que limita os patrocinadores no carnaval da cidade escolhendo a cervejaria que irá patrocinar seus eventos, assim como as emissoras de TV, que proíbem que tais patrocinadores estejam no evento que a emissora A ou B irá transmitir, inviabilizando qualquer negociação prévia na busca de recursos, haja vista que as negociações municipais e empresariais são feitas em sigilo.

É triste ler um artigo publicado em um editorial de um jornal local respeitado, inclusive por ser um dos meios de comunicação que viabilizou a transmissão do carnaval de Florianópolis em 2017, e que com muita dificuldade, aos 45 minutos do segundo tempo, pouco pode agregar para fomentar a cultura carnavalesca que tanto elogiou na TV.

Para finalizar, o povo do carnaval, suas comunidades, nossa gente, estamos cansados de ser manipulados por emissoras de TV, políticos, empresas privadas, que criam enfadonhas negociações entre poder público e patrocinadores.

Barganham com aquilo que é a vida de muita gente. Barganham com aquilo que é a cultura dos morros, das comunidades carentes, das pessoas de raças diferentes, dos mais diversos credos, que se congregam na avenida uma vez por ano.

É válido lembrar ainda que o carnaval não é festa para o povo, mas sim a festa do povo. É dessa gente que trabalha diariamente contribuindo para a manutenção das contas do município que estamos falando. Esse povo que trabalha o ano todo pra poder se divertir uma noite.

Não façam do carnaval o motivo para justificar a falta de recursos por má gestão ou corrupção. A cultura é nossa e nenhum centavo a menos para o carnaval servirá para fomentar qualquer outra política pública.

Desafio qualquer prefeito para que prove o contrário do que escrevi acima!

Jorginho Lautert – Fundador do Site Na Avenida

Leia aqui o Editorial na íntegra.

[1] Publicado em: http://cbndiario.clicrbs.com.br/sc/noticia-aberta/florianopolis-conta-com-r-14-milhao-do-governo-estadual-para-o-carnaval-187916.html

[2]Publicado em: http://dc.clicrbs.com.br/sc/noticias/noticia/2016/02/prefeitura-de-florianopolis-faz-balanco-positivo-do-carnaval-2016-4972172.html

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2 comments

  1. Uma resposta sensata e lúcida de Jorginho Lautert ao editorial do dia 9 de novembro. Um editorial que foi escrito por um jornalista que sequer cita a falta de políticas publicas e de gestao publica para o carnaval e para a cultura de Florianópolis, por parte do municipio. Esta resposta de Jorginho, deveria ser publicada no mesmo jornal “Noticias do Dia”, no mínimo como um direito de expressao de um cidadao.

  2. Carnaval de Florianópolis: precisa apresentar um Raio X claro e um diagnostico serio, para então prescrever o remédio certo para sair da UTI e ficar longe do fim.

    • A personalidade do carnaval de Florianópolis infelizmente está conectada à forma antiga de pensar, e ser diferente se torna uma ameaça ao ego de muitos senhores que se acham donos desta grande festa popular.

    • Mudanças são difíceis para a maioria pela dificuldade de abrir mão de um legado já construído, não importa quão ultrapassado esteja. Porém para termos respeito e relevância precisamos de transformações, mesmo que signifique começar tudo do zero.

    • Pois já sabemos que tal relevância do carnaval na vida social brasileira é ilustrada pelo ditado popular, segundo o qual, no Brasil, o ano só começa quando o carnaval acaba. Se, por um lado, ele realça o fato de que em algumas cidades do país é praticamente impossível ficar alheio aos festejos durante os dias de folia, por outro, também revela o desconhecimento do carnaval como uma importante atividade econômica mobilizada a partir de um elemento da cultura nacional.

    • Em Florianópolis temos a tradição da não realização de estudos de políticas públicas, em especial em áreas que envolva a cultura popular, onde esta inserida a nossa maior festa popular o carnaval.

    • Ao revisitar, ainda que superficialmente, as ações do Estado e do Município no âmbito da cultura popular podem ser verificadas uma série de iniciativas na direção da elaboração de linhas de atuações políticas, que inúmeras vezes foram abandonadas e retomadas com pequenas alterações por governos que se seguiram e que nunca surtiram os efeitos esperados. (a cada período eleitoral tem como consequência mudanças nas regras do jogo conforme interesses políticos e de grupos que se acham donos do espetáculo)

    • Esse processo de eterno recomeçar, de experiências que poucos rastros deixam de ausência de registros, de pouca sistematicidade nas ações, geram alguns efeitos perversos, com grandes desperdícios de recursos financeiros e humanos que culminam em enfraquecimento e decisões de ultima hora onde o mero objetivo é politiqueiro em que nada contribui para garantir e dar sustentabilidade ao evento carnaval ficando sempre a justificativa de mais um carnaval de superação e não do planejamento e da gestão séria, indo na contra mão da historia que no meu ponto de vista só fortalece o interesse dos oportunistas de plantão e da política do toma lá dá cá.

    • Ainda há muito a se investigar e aprender sobre o carnaval e a sua gestão em Florianópolis, mas certamente todos reconhecem que ele é um dos principais exemplos de integração entre o conhecimento tradicional, a cultura, a arte e a economia da Cidade.

    • Em um tempo de constantes inovações tecnológicas que facilitam a disponibilização e a democratização das informações, torna-se tarefa inadiável o resgate das ações do governo na área da cultura popular – o carnaval.

    • Ocorre hoje, em nível mundial, um processo de valorização cada vez maior do papel da cultura nas sociedades em um mundo globalizado, coisa que me parece está sempre em segundo plano no que tange a cultura popular. (em Florianópolis só se vende belezas naturais deixando em segundo plano os eventos culturais)

    • Os processos culturais vêm sendo considerados importantes sejam como fontes de geração de renda e emprego, sejam como elementos fundamentais da configuração do campo da diversidade cultural e da identidade nacional.

    • Os diálogos no campo das políticas culturais devem ocorrer nas mais diversas direções, entre os tempos e os espaços geográficos, entre as diferentes formas de ver e de fazer, pois não pode ficar no campo das hipóteses de sua visibilidade ou a mercê das questões políticas ideológicas, já que merece estudos mais específicos e aprofundados. ( O carnaval tem que deixar de ser bandeira política para ser um evento oficial da cidade independente de quem esteja no poder Municipal e Estadual)

    • A produção cultural de uma determinada sociedade engloba um número quase infinito de saberes e fazeres, e seu estudo exige um esforço permanente de reflexão e de análise.

    Aí deixo as seguintes perguntas:

    • Qual deve ser o papel das políticas públicas no universo da cultura?

    • Quais são as políticas públicas culturais referentes ao carnaval de Florianópolis?

    • Qual relação dialógica entre a tradição e a indústria cultural presente no mundo do samba e no carnaval de Florianópolis?

    • Qual atuação do Estado e do Município respeitando a liberdade de criação, mas garantindo os direitos culturais e a preservação do patrimônio cultural, fomentando a produção e fortalecendo a economia da cultura?

    • Porque não colocar em discussão e estudar a economia do carnaval de Florianópolis e afirmar que a evolução dos desfiles representa um grande exemplo de como uma criação da cultura popular pode evoluir da esfera não mercantil para a centralidade da indústria de serviços de lazer em massa de Florianópolis?

    • Qual a dúvidas acerca da transformação do carnaval de Florianópolis em um grande negócio?

    • Porque o medo dos órgãos públicos em cortar as amarras e deixar que o carnaval se torne mais independente?

    Ainda há muito a se investigar e aprender sobre o carnaval de Florianópolis. Acredito que não estamos no fim mais no reinicio de uma nova era – se aplicarmos um bom planejamento, uma boa gestão, tanto na Liga das Escolas de Samba como nas Escolas de Samba e uma boa interação com os poderes constituídos, e os segmentos produtivos da cidade e do estado, consigamos fazer do nosso carnaval a festa oficial de Florianópolis com mais independência.

    Florianópolis, 06 de novembro de 2017.
    Edu Aguiar.

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