Floripa – Artigo Sandro Roberto – Análise dos sambas segundo a adequação ao enredo

sandro roberto

Neste artigo será realizada uma análise dos sambas das Escolas de Samba do Grupo Especial de Florianópolis para o carnaval 2017, segundo a adequação aos enredos propostos pelos respectivos carnavalescos.

As análises serão apresentadas conforme a ordem de desfile.

1) Consulado

A Escola de Samba do Caeira do Saco dos Limões apresentará o enredo “Mô querido, aqui é o meu lugar!”, de autoria de Raphael Soares. O samba é assinado pelos compositores Casinha, Jacson do Cavaco, Mancha do cavaco e Rafael Schramm.

Em primeiro lugar cabe aqui uma correção, a pedido da própria agremiação, acerca do que foi publicado no nosso site para que se leiam os seguintes versos “na praça sob um velho limoeiro”, “brotam frutos do progresso nesse chão” e “o boi de mamão é tradição”, onde são lidos no site “na praça sobre um velho limoeiro”, “brota o fruto… do progresso evolução” e “a festa de boi é tradição”, respectivamente.

Com as devidas correções, passemos à breve análise.

Diante daquilo que foi apresentado pelo carnavalesco, o samba acaba se adequando bem ao enredo, detalhando nos versos o que o carnavalesco apresentará. Fica fácil o entendimento da história quando se faz a leitura do samba. O intérprete oficial da escola será o renomado Gilsinho, considerado uma das melhores vozes do grupo especial do Rio de Janeiro, e pode-se dizer que o samba caiu bem na sua voz, em que pese a gravação tenha sido realizada pelo ex-intérprete oficial Thiago, que pediu afastamento para tratamento de saúde.

O ponto alto do samba são os três últimos versos “de mãos dadas por becos e vielas/o povo vai cantar/Ó mo querido aqui é o meu lugar”, que ao meu entender mexe com a emoção as pessoas da comunidade além de trabalhar o trocadilho “aqui é o meu lugar”, referente ao bairro e ao grupo especial.

2) Os Protegidos da Princesa

A Escola de Samba Os Protegidos da Princesa apresentará na avenida o enredo “Arapaço – o mito do povo cobra” de autoria de Willian Tadeu. Assinam o samba Conrado Laurindo, Fred inspiração, Ricardo Abraham, Victor Alves e Willian Tadeu. O intérprete oficial dispensa comentários no carnaval de Florianópolis Allan Cardozo.

Não há dúvidas em relação à adequação ao enredo uma vez que o autor do enredo também compõe a parceria no samba, o que é positivo para a escola em razão de se poder cercar toda a proposta do enredo.

Neste sentido, perceber-se a fidelidade à sinopse do enredo de modo que , ao se ler o samba, pode-se notar claramente a proposta apresentada pelo autor. Creio que o jurado não terá dificuldade no julgamento, pelo caráter didático da letra. Compreende-se a história apenas “passando os olhos” na letra.

Gostei bastante dos versos “Em meio ao esplendor da floresta/emergiu das águas, sobrenatural” no que se refere à melodia.

3) Nação Guarani

A Escola de Samba que representa a cidade de Palhoça leva para a avenida o enredo “Guarani sou teu povo… sou Nação… É o mito da Criação nas Colinas do Areguá” de autoria de Márcio Schitz e André Filosofia. Assinam o samba André Filosofia, Juninho Zuação, Lenadrinho Lv, Nando do Cavaco, diley Machado, Tabajara Ortiz, Guilherme Cecílio, Wilson Silva, Wagner Amaral e Xandinho Nocera.

Para a Passarela do Samba o intérprete oficial será o já conhecido Tiganá, que no último carnaval recebeu o troféu SRZD-Carnaval 2016 como melhor intérprete da série A.

O samba também consegue contemplar na sua letra a proposta do enredo. A participação do autor do enredo na composição do samba contribuiu positivamente, a exemplo da Os Protegidos da Princesa, para que se pudesse “amarrar” toda a proposta.

Samba de fácil compreensão e as poucas palavras na grafia indígena não atrapalharão o canto, que é positivo, pois a parceria conseguiu contar uma história sem abusar dos referidos termos, deixando para o desenvolvimento do enredo tais expressões.

Achei muito bonita a passagem melódica no verso “Na Yvy Maraey: Morada dos Deuses vem ver”

4) Embaixada Copa Lord

A Escola de Samba Copa Lord apresentará uma reedição do enredo “Eu sou filho do batuque, neto do abatá-kotô, de autoria de Edu Aguiar. Os autores do samba são Paulinho Carioca, Vicente Marinheiro, Márcio Martins, Edu Aguiar e Celinho da Copa Lord. Na Passarela Nego Quirido o samba será interpretado por Nellipe, conhecido na cidade e para muitos a revelação no último carnaval.

Copa Lord é mais uma escola de samba em que o autor do enredo é participante na parceria do samba, fazendo um papel facilitador na confecção da obra, que permite contemplar na letra toda a ideia do criador do enredo.

Neste sentido, o samba se tornou fiel à sinopse apresentada e esclarece o objetivo da proposta do enredo. O fato de ser um enredo de cunho afro-brasileiro, foram felizes os compositores em não abusar dos termos de grafia africana, o que dificulta o canto.

Ao ouvir o samba, desde a primeira edição, gostei bastante da estrofe “Viajando para o reino dos Palmares/com a embaixada dos meus sonhos/sob a saga de zumbi/no quilombo eu vivi a libertação” por conseguir traduzir ao mesmo tempo uma parte do enredo e mexer com o emocional de quem canta.

5) Unidos da Coloninha

A Escola de Samba Unidos da Coloninha levará para a Passarela Nego Quirido o enredo “A Coloninha teve uma boa ideia! Salve todos os inventores e suas mentes” de autoria de Duda Neto e Camila Luz. Assinam o samba os compositores Alan Cardoso, Anderson Ávila, Marçal Santini, Rafael Leandro e Rafa Schramm; a escola terá como intérpretes Jorge Luiz e Petoco, já conhecidos do povo do samba de Florianópolis.

Em que pese a análise do enredo no último artigo tenha criado uma impressão aquém da esperada, o mesmo não aconteceu com o samba, que conseguiu traduzir a proposta daquilo que foi apresentado na sinopse. Penso que, na minha opinião, os compositores conseguiram tirar leite de pedra. Fica aqui o registro de superação da parceria.

Gostei bastante dos versos “voando e dando asas à imaginação/aguça uma mente genial”, que ao meu ver poderiam ser o resumo de todo enredo.

6) Dascuia

A última escola a desfilar apresentará o enredo “O Preço da Ilusão – Um enigma na ilha das Bruxas” de autoria de Marcos Stroich. O samba é assinado por Juninho Zuação, PH, Leandrinho LV, Nando do Cavaco, Thiago Tarlher, Xandinho Nocera, André Filosofia, Vinydacor e Diley Machado, sendo interpretado na Passarela Nego Quirido por Mará de Nilópolis, já consagrado na nossa cidade.

O samba contempla a ideia apresentada pelo carnavalesco e entendo que os compositores foram felizes em alguns aspectos traduzidos nos seguintes versos “o enigma vai se revelar” (por deixar claro o mistério que envolveu o filme) e “minha senhora, peço licença, alumia/deixa minha escola passar”. Explico: na proposta do enredo o carnavalesco insere a ideia de que o insucesso do filme se deu por conta de não se ter uma certa reverência às bruxas da ilha, mas a escola no último verso citado, para não ter insucesso pede licença, agindo de forma respeitosa. Muito interessante.

Conclusão

Fica meu registro de que em termos de interpretação dos enredos e suas respectivas adequações na construção dos sambas, as parcerias das escolas de samba foram muito felizes.

Diante da qualidade do materiais que lhes foram apresentados algumas parcerias certamente tiveram mais dificuldades na confecção dos seus sambas, mas que ao final dos trabalhos puderam proporcionar letras muito esclarecedoras e fáceis de cantar.
Posso afirmar sem medo de errar que TODOS os sambas, no que se referem à adequação ao enredo, contemplam as referidas propostas.

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