Floripa – Enredos 2017: primeiras impressões – Parte 1

 

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O site Na Avenida disponibiliza a primeira análise dos enredos do Carnaval Florianopolitano 2017.

E o analista é um grande conhecedor do “métier”. Trata-se de do renomado enredista Sandro Roberto (autor de vários enredos da Consulado).

Tal análise será dividida em três artigos. Neste primeiro, as escolas são a Consulado e a Protegidos:

Boa leitura!

“A partir desta postagem os assuntos abordados farão referências aos enredos apresentados pelas Escolas de Samba de Florianópolis para o carnaval de 2017.

Trata-se de uma análise concisa acerca das propostas das Escolas de Samba da capital catarinense, não se tratando, pois, de um juízo cristalizado, onde exista uma única verdade, mas uma primeira impressão a partir do tema e das sinopses disponibilizadas.

A cada postagem, dois enredos serão refletidos, obedecendo a ordem de desfile.

A primeira escola de samba a desfilar na Passarela Nego Quirido é o GRES Consulado e apresentará o enredo ‘Mô querido, aqui é o meu lugar’, assinado por Raphael Soares. Segundo o carnavalesco, o próprio título é um trocadilho referindo-se ao Grupo Especial e ao bairro Saco dos Limões. Segundo a proposta, o enredo valoriza a história da própria agremiação, desde a sua fundação ainda como bloco ‘Consulado do Samba’ até sua fixação no bairro do Caeira do Saco dos Limões, tendo como fio condutor o malandro carioca e o manezinho ilhéu, que se encontram para então narrar toda a história que se apresentará na Passarela.

Confesso que ao ler o tema, tudo me pareceu confuso, mas sempre parto da premissa que não existe enredo ruim, mas enredo mal desenvolvido. Não foi o caso do GRES Consulado, que aproveitou a criatividade do carnavalesco e criou uma sequência lógica nos acontecimentos, transformando aquilo que num primeiro momento parecia algo simplório numa história riquíssima em detalhes e curiosidades. Como gosto de enredos históricos, fiquei admirado após ler a sinopse. Tive a oportunidade de estar presente em uma reunião na agremiação onde os detalhes confirmaram a nova opinião após a leitura da sinopse. Percebi que a comunidade ‘comprou1 a ideia e senti uma boa atmosfera na quadra.

A segunda escola de samba a pisar na Passarela Nego Quirido é  ‘Os Protegidos da Princesa’. A escola mais antiga e mais vezes campeã do carnaval florianopolitano viaja na floresta amazônica para contar “Arapaço, o mito do povo cobra”, de autoria de Willian Tadeu.

Já afirmei que gosto de enredos históricos, sobretudo quando eles trazem uma novidade para o carnaval. Lendas abrem leques enormes para exploração. Falo isto por não conhecer a história a ser apresentada pela agremiação, mas acredito que virá bem amarrada na sua proposta. Percebo no personagem Unurato o fio condutor que guiará a história através das lendas narradas na sinopse. Percebo um misto de lenda e viagem do autor do enredo.

Pode-se esperar da querida ‘Protegidos’ um uma plástica rica. Enredos de cunho amazônico sempre despertam olhares curiosos e ansiosos por um belo espetáculo. Conversei com dois amigos que são componentes da escola e me confidenciaram estarem animados com a proposta da escola.

Fiquei, no entanto, com dúvidas em relação à parte final da sinopse ‘…impávidos que nem Muhammad Ali, apaixonadamente como Peri, tranquilos e infalíveis como Bruce Lee, com o axé do afoxé Filhos de Gandhi…’ , por não compreender a relação dos referidos personagens com o tema. Esclarecimentos serão bem vindos, os quais serão  publicados”.

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3 comments

  1. Prezado Sandro Roberto, como contribuição, a parte da sinopse da Protegidos que você disse não ter entendido, refere-se aos versos da música “Um índio”, de autoria de Caetano Veloso, composta nos anos 70. Eu não li a sinopse da escola, mas a música se refere a um índio idealizado, mítico, que, segundo a letra da própria canção, “descerá de uma estrela colorida, brilhante / De uma estrela que virá numa velocidade estonteante / E pousará no coração do hemisfério sul / Na América, num claro instante…” E este mesmo índio viria “empoderado”, e então sim, “impávido que nem Muhammad Ali, apaixonadamente como Peri, tranquilo e infalível como Bruce Lee, com o axé do afoxé Filhos de Gandhi”. Talvez a ideia da escola seria enaltecer a pujança do índio amazônico, referenciando-o como o índio idealizado por Caetano na canção. É o que posso tentar contribuir com sua análise. Um abraço e parabéns pelo trabalho.

  2. Olá, Sandro!

    Parabéns pelo espaço neste site, que sei bem que dá total liberdade de expressão aos seus colaboradores. Tenho certeza que os debates sobre nosso carnaval serão engrandecidos pela tua participação, o que já começa com a análise dos enredos, tema que muitas vezes passa “batido” e, como você bem sabe, é o fio condutor de todo o carnaval da escola.

    O final do enredo faz uma referência à canção “Um Índio”, de Caetano Veloso. Inspiramo-nos no espírito da canção para imaginar o renascimento arapaço. O tom profético do mito é similar ao da canção e a bacia do Rio Negro possui “pontos equidistantes entre o Atlântico e o Pacífico”, como diz o compositor. No mito, Unurato estaria construindo uma cidade no fundo das águas com as máquinas que utilizou na construção de Brasília. Não se trata de uma referência mais direta à música, como era com o “Pagode russo” em 2016, mas de uma incorporação de seu espírito.

    Sobre o misto de lenda e viagem do autor do enredo, não deixa de ser verdade. É importante diferenciar mito e lenda: enquanto a lenda é uma narrativa fixa, o mito é vivo, ele ajuda a explicar os acontecimentos da sociedade que o criou. Por isso, os relatos do mito seguem o ritmo das transformações que a tribo sentia, cada momento de transformação do mito equivale a uma maneira da tribo explicar o mundo. Para a tribo, o momento da chegada dos exploradores europeus e da escravidão é quando Unurato toma um tiro e se quebra o equilíbrio que ele mantinha entre o mundo indígena e o mundo dos brancos. Da mesma maneira a construção de Brasília (logo em seguida, é criada a FUNAI e a “questão indígena” vira problema de governo) é explicada como se Unurato tivesse se mudado para lá e ajudado a construir. É esse mesmo ritmo que seguimos na narrativa. Por outro lado, os relatos do mito (que são poucos e nem sempre iguais, o que leva o enredo a selecionar versões) são complementados pelas relações históricas. Por exemplo, quando Unurato vai para Manaus, os índios só narram que ele conheceu “as coisas dos brancos”. Coube então fazer a pesquisa sobre o que eram “as coisas dos brancos” em Manaus em um período aproximado ao que provavelmente o relato se refere.

    Aproveito a oportunidade para informar que o desfile será dividido em 4 momentos:

    1. A origem do mito
    2. O contato com os brancos
    3. Unurato em Brasília
    4. O mito como perspectiva de futuro

    Espero que meu comentário seja útil para a compreensão e o debate.

    Abraços

  3. Olá Willian e Gerson
    A letra da música eu conhecia, mas gostaria mesmo era de entender a relação com o enredo, que foi esclarecida com o texto do Willian (e isso então entrou também na parte de viagem do autor. Ah, entendam viagem como algo positivo e permitido no carnaval e não a linguagem pejorativa)
    O caminho é esse: escrever e abrir espaço para as respostas para que as pessoas compreendam a proposta de cada escola, no entanto, tratam-se de primeiras impressões. A ideia não é dar a última palavra, mas permitir o bom debate.
    Agradeço a contribuição, desejando um excelente carnaval a todos.

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