Floripa – Escolas de Samba e o Carnaval de Florianópolis: quais sacrifícios faríamos para manter viva a nossa cultura?

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Equipe Na Avenida com a Corte do Carnaval momentos antes da abertura dos desfiles 2016 de Florianópolis.

“Samba/Agoniza mas não morre/Alguém sempre te socorre/Antes do suspiro derradeiro…”

Com estes versos de Nelson Sargento, o site Na Avenida convida os sambistas de verdade da cidade para uma breve reflexão.

O samba atravessa o tempo e tem passado por muitas adversidades. Samba é patrimônio brasileiro e tem suas diversas ramificações: samba de quadra, terreiro, partido alto, etc. No carnaval, porém, a festa momesca é o momento em que a maior expressão do samba é colocada em evidência: o samba-enredo.

O samba ganha as ruas, esquinas, bares e festas através do samba-enredo, cuja vida se mantém através das escolas de samba. Neste sentido a vida do samba-enredo depende exclusivamente da existência das escolas de samba, pois este é o terreno fértil para que o samba, nesta forma de manifestação, deixe seu legado e seja propagado para todas as gerações futuras.

Então, na cidade de Florianópolis, o carnaval de 2017 está sendo atípico.

Falemos, pois, da tradição. A abertura do carnaval tradicionalmente realizada pelo Bloco Berbigão do Boca, que ganhou destaque na imprensa em rede nacional, não ocorreu. No entanto, poderia acontecer de forma mais singela que a comumente vista, mas que não se perdesse a oportunidade de colocar na rua bandinhas com músicas carnavalescas para se manter a tradição da cidade.  Não teremos o tradicional “Enterro da Tristeza”, que era também uma oportunidade de chamar as pessoas às ruas para fazer parte de mais esse arrastão carnavalesco. O argumento é sempre financeiro. O poder público alega que não pode ajudar, mas… Bem, a reflexão continua.

As escolas de samba também receberam um revés. Se existia um convênio com repasse de valores, agora isso caiu por terra e com o discurso de “precisamos investir em saúde, educação, segurança e pagar os servidores”, certamente bem vendido a muita gente, que acabou comprando a ideia e se manifestando em rede sociais, como se o não financiamento do carnaval fosse resolver os problemas da cidade.

Observa-se, pois, que o patrocinador do carnaval de Florianópolis certamente impôs suas condições e cortou as escolas de samba dos seus planos. E lá se vai a cultura do samba sendo preterida pelos eventos que o patrocinador promoverá na cidade com apoio do poder público. Eventos que em nada significam para se manter viva a cultura. Ao invés de surdo, pandeiro e tamborins, teremos música eletrônica no centro da cidade. Ao invés de instrumentos de sopro e irreverência, teremos artistas da moda na cidade, que em nada agrega para a cultura local.

Para demonstrar a forma atípica do carnaval 2017, não teremos concurso para rainha do carnaval. Talvez a alegação seja financeira, mas vejamos: sempre foi um evento na rua, que reunia milhares de pessoas e que seria uma grande oportunidade do poder público pedir, então, ao patrocinador/parceiro que investisse ali também. Falta de boa vontade é o termo que resume essa não realização, que a exemplo do proposto anteriormente poderia se dar de forma mais singela.

Mais atípica ainda foi a saída do poder público que não realizou o concurso e manteve a corte 2016 no carnaval.

Por fim, o desfile das campeãs do carnaval de Florianópolis não será mais o evento expressivo de encerramento do carnaval, mas uma festa a ser realizada no sábado seguinte ao carnaval já recebeu o título de “Encerramento Oficial do Carnaval”.

Pelo histórico dos eventos supracitados, percebe-se que no carnaval o que menos se nota é o samba. Pelo menos naquilo que é objeto de total atenção do poder público e de seu parceiro/patrocinador.

Enquanto isso, nós, do mundo do samba, não conseguimos sequer a devida atenção, nem durante o ano.

Na mesma obra de Nelson Sargento lê-se “Samba/inocente pé no chão/a fidalguia do salão/te abraçou, te envolveu/mudaram toda a sua estrutura/Te impuseram outra cultura/E você nem percebeu…”

Com respeito às diversas opiniões, mas se Nelson Sargento olhar para a nossa cidade perceberá que sua canção era uma profecia, porém com um grau de gravidade maior. Não somente impuseram outra cultura, mas se colocou o samba num caminho de total abafamento.

Afinal, o que estamos dispostos a fazer pela sobrevivência do samba no carnaval?

O povo do samba deve prestigiar ao máximo os ensaios de suas escolas de samba. As agremiações precisam de visibilidade. A sociedade, bem como o poder público e empresários, precisam enxergar o grande percentual de pessoas que prestigiam o samba. Precisamos mostrar a nossa força, encher ensaios, Praça XV, ensaios técnicos na Nego Quirido. Mesmo que se tenha um dia de trabalho exaustivo, faça cada um o seu sacrifício de estar prestigiando todas as atividades de suas agremiações. Precisamos também deixar de olhar apenas para as cores da nossa bandeira para de fato levantar as cores da bandeira do desfile das escolas de samba e da nossa resistência. É deixar a individualidade de lado para um bem maior. Cada um deve se orgulhar de fazer parte da história de resistência das escolas de samba num ano em que tudo parecia colaborar para não permitir o desfile das escolas de samba. Você dirá no futuro para seus filhos e netos: “eu estava lá, colaborando e dando minha parcela de contribuição para que você pudesse hoje viver o samba”!

De igual modo, por amor ao samba, que precede ao cargo de rainha e princesas do carnaval, deveriam as meninas da corte renunciarem os cargos. Se as escolas de samba não servem para serem patrocinadas, também não servem para ter suas representantes abrilhantando os eventos de quem vira as costas para a nossa cultura, pois a festa de lançamento do carnaval da empresa já teve a participação da “nova Corte”. Vejam a contradição: não apóia as escolas de samba, mas quer na sua festa a corte do carnaval, composta por pessoas membros da comunidade do samba.

Viu-se em redes sociais que a repetição de uma corte é histórica e razão de orgulho para quem permanece. Salvo engano os valores estão invertidos, pois não será conhecida como a Corte que brilhou em dois carnavais seguidos, mas a Corte do ano em que viraram as costas para o povo do samba. Sinceramente, não se vê nisso motivo algum de orgulho. Deveriam se solidarizar com as escolas de samba, que as projetaram para brilhar num concurso de Rainha do Carnaval, bem como com possíveis candidatas que já estariam contando com a possibilidade de serem Rainhas ou Princesas. Até mesmo pelo fato de que isso é passageiro e não seria legal entregar a faixa em 2018 e ter que comprar ingresso para uma festa eletrônica, pois não existem mais escolas de samba para desfilar. Seja a corte também protagonista dessa luta pelo samba. Nessa hora o ego e a individualidade também precisam ser deixados de lado por um bem maior. Com certeza serão lembradas como grandes resistentes e colaboradoras para o samba ao invés de figurantes.

O que aconteceu com a corte do carnaval é algo que se poderia dizer assim: “em 2017 não terá desfile de escolas de samba, mas a Unidos da Coloninha será declarada campeã do carnaval, pois ganhou em 2016”.

Devemos refletir mais ainda sobre outras questões que virão no “pós-carnaval”, pois o desfile das escolas de samba é apenas o fechamento de um ciclo, que sequer foi permitido iniciar com qualidade em razão de uma resistência até então obscura, mas o tempo se encarregará de desvelar.

 

 

 

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