Floripa – Leia o novo artigo de Sandro Roberto – Carnaval de Florianópolis: tragédia anunciada!

 

copa lord 1
Foto de alegoria da Copa Lord durante desfile de 2016 – Crédito: Liesf

Leia o novo artigo do renomado temista e comentarista do site Na Avenida Sandro Roberto.

No mesmo, procura abordar questões pertinentes a realização do Carnaval Florianopolitano 2017.

Trata-se de uma verdadeira aula sobre cidadania e ideologia enquanto falsa consciência.

Boa leitura!

Mais do que isso: Uma ótima reflexão!

Título: Carnaval de Florianópolis – Tragédia anunciada!

“Já faz algum tempo que fiz uma afirmação que desagradou muita gente, em especial os mandatários do carnaval de Florianópolis. Na ocasião eu disse ‘não adianta pensar em reformulação do carnaval se a mentalidade dos dirigentes não muda’. Não faltaram hostilização, principalmente argumentos do tipo ‘você é do contra’ e por aí vai, típico de quem insistia num projeto sem sentido, mas não admitia ouvir algo diferente, sequer para reflexão.

Para refrescar a memória, um breve histórico.

Nossas escolas de samba sempre tiveram a prática do ‘pires na mão’, aguardando o poder público para dar o pontapé inicial nas suas atividades. A verba pública acabava sendo a maior parcela do orçamento das escolas de samba.

Ocorre que ao invés de se tentar mudar a mentalidade, os paradigmas ou a visão da realização de um espetáculo, optou-se por criar mais escolas de samba. E o pior: criar dois grupos de acesso.

Neste sentido, a verba oriunda do poder público já não se dividiria em poucas escolas de samba, mas em quase vinte agremiações, com as devidas proporções.

Aponto o primeiro grande equívoco: não se mudou a mentalidade das escolas existentes para que se pudesse criar um novo modelo de gestão das agremiações, a fim de que servissem de ‘espelho’ para as futuras escolas de samba a serem fundadas.

O segundo grande equívoco: não sei de onde nasceu a ideia, mas os blocos que existiam e desfilavam na Passarela Nego Quirido, já nasceram com a intenção de se transformarem em escolas de samba, com a projeção de isso acontecer em no máximo dois ou três anos, não respeitando um processo natural, como aconteceu com a escola de samba Consulado, que por dez anos foi campeã do desfile dos blocos carnavalescos.

Ou seja, poder-se-ia aproveitar de um bloco apenas por um pouco período de tempo, pois logo nasceria uma escola de samba. Pessoalmente entendo que é pouco tempo para se consolidar como agremiação para já alçar voos altos. De qualquer forma, o desfile de blocos de enredo estaria com os dias contados.

Era muito saudável para a folia quando havia um tempo em que se tinha o dia de desfile das escolas de samba e o dia do desfile de blocos. Era comum componentes de escolas de samba adversárias se encontrarem na concentração de um bloco para desfilarem juntos. Os blocos tinham também a finalidade de agregar, o que era muito positivo. Entretanto, querer ser escola de samba falou mais alto. Todos os blocos viraram escola de samba e não se tinha um modelo de gestão que pudesse criar autonomia às entidades.

Há, entretanto, o terceiro grande equívoco: o silêncio dos dirigentes. Neste caso, aponto como sendo um grande equívoco a forma como, com o passar dos anos, os dirigentes foram se silenciando. Existe, no entanto, uma razão: ninguém queria se indispor com quem ‘banca a festa’.

As pessoas evitam o confronto, evitam o debate e aceitaram as coisas com naturalidade, pois sempre se dava um ‘jeitinho’ para se ter dinheiro para as agremiações. Nem que fosse às vésperas do carnaval o dinheiro do poder público sempre aparecia. Isso gerou uma inércia, inclusive, na organização das comunidades em geral, ou seja, se a escola de samba não faz nada, seus componentes também apenas esperam. É o que chamo ‘pires na mão totalmente passivo’.

Retornando aos dias de hoje, o mais cruel dos equívocos: a sociedade comprou a ideia de que o poder público não tem que ‘bancar a festa’. Em primeiro lugar não se trata de apenas uma festa, mas de uma manifestação cultural que é genuinamente brasileira: o desfile das escolas de samba, que tem na sua raiz a resistência e a conservação do nosso samba.

Ocorre que virou moda prefeitos assumirem suas respectivas prefeituras e, numa tentativa de montar uma imagem do politicamente correto, criam jargões do tipo ‘vamos cortar a verba do carnaval para investir em saúde, segurança e educação’. Parte da sociedade que não gosta de carnaval esbraveja concordando e aproveitam o momento para destilarem seu preconceito contra uma manifestação cultural.

No entanto, afirmo sem receio algum que se trata de um grave equívoco achar que o poder público não tem obrigação alguma de investimento. Senão vejamos:
Bernardo Machado em sua obra ‘Direitos culturais e Políticas para a Cultura’ relaciona os direitos culturais como parte integrante dos direitos humanos, sabendo que os chamados direitos culturais têm sua previsão na Constituição Federal, em especial no artigo 215, corroborando com o que prevê a Declaração Universal de Direitos Humanos. Ou seja, a constituição de 1988 recepcionou a declaração universal (criou um dispositivo para acolhê-la).

Na leitura do artigo 215 da Constituição Federal, percebe-se que o constituinte se preocupou em garantir aos brasileiros o efetivo exercício dos direitos culturais. Neste viés não é errado concluir que o Estado deve garantir o exercício dos direitos culturais, o que significa também financiar as iniciativas de preservação da cultura, entre as quais está o desfile das escolas de samba.

O problema é que não se pode querer que o poder público participe com 100% (cem por cento) do orçamento do desfile das escolas de samba, mas que também não fique omisso ou não participe com nenhum investimento.

As vozes que bradam contra o investimento público no carnaval sequer conhecem a própria cultura e tampouco a constituição que rege o país. Deveriam se envergonhar por isso.

Cabe, no entanto a seguinte reflexão: não existindo o desfile das escolas de samba, com que certeza essa gente vai afirmar que creches e hospitais serão construídos?

Não é estranho também que em nenhum momento do ano se reivindique segurança, creches, escolas e saúde, mas apenas quando se falar em investir na cultura que tem ligação direta com classes menos favorecidas?

O cenário do carnaval de Florianópolis de fato é uma tragédia anunciada, mas tudo pode ser diferente para melhor.

Acredito que o povo do samba precisa tomar consciência de que se não começarmos um movimento a partir de nossas comunidades, estaremos contribuindo para o sepultamento de uma das mais importantes manifestações culturais.

Precisamos cobrar das nossas entidades ações que façam a sociedade enxergar a nossa necessidade de existir e celebrar nossas ações no carnaval. Precisamos também cobrar dos governantes sua responsabilidade em contribuir para manutenção da nossa cultura.

QUEREMOS RESPEITO!”

CompartilheShare on FacebookShare on Google+Tweet about this on Twitter

4 comments

  1. Parabéns gostei da matéria muito boa, eu entendo q/ os empresários deva ajudar sim, pq eles são deles As Pousadas, Hoteis, Restaurantes..APT/ P/ lugar. Temos q/ admitir q/ o Carnaval tbm/ aqui cm/ n/ Rio se tornou um evento lucrativo p/ elite. E sempre foi isto n/ Rio agora aqui.. Assim sendo tds/ devem ajudar a manter esta fonte de Cultura e alegria.

  2. Não tiro nem acrescento uma só vírgula, palavras muito bem colocadas, me chamou atenção a parte em que só olham os problemas das creches e saúde em tempos de Carnaval? Só faltam isso neste período do ano? Parabéns pela matéria.

  3. “Pobre evento de Florianópolis – Com esta vontade política e esta falta de planejamento institucional, continuamos a enganar e roubar com a cara mais deslavada do mundo nossos artistas e eventos culturais.” Esta é a cidade do me engana que eu gosto.

  4. Carnaval X Política

    “A Cidade de Florianópolis é um tipo de terreno coberto pela retórica, pois está sempre minado de equívocos”.
    A arte se julga pela estética, a política pela ética, enquanto isso o nosso carnaval se julga nem por uma coisa nem por outra se julga pela incompetência e pela dependência. É uma pena!

Deixe seu comentário.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *