Floripa – Lições a serem refletidas

Sandro

Reflitam sobre o texto escrito pelo nosso comentarista Sandro Roberto acerca das impressões sobre cultura, tradição e o tratamento dado ao povo do samba a partir da passarela Nego Quirido:

 

Passada a euforia do carnaval, tendo a comemoração dos vencedores e as frustrações de quem não alcançou o desejado título de campeões do carnaval, urge que se faça algumas reflexões acerca do que ocorreu antes e durante os desfiles das escolas de samba de Florianópolis.

Falácias: é fato notório de que havia, e ainda há, um discurso uníssono dentro do poder público municipal e de seus agregados que não se poderia deixar de investir em saúde e educação para investir em escolas de samba. Evitarei refutar esse discurso, pois o poder público é conhecedor de que essa é a maior desculpa esfarrapada e sem fundamentação utilizada por políticos para forçarem uma popularidade dentro da cidade. No dia do desfile o prefeito muda o discurso sutilmente agravando a situação, quando afirmou ao vivo no microfone da rádio parceira de nossa transmissão “… está na hora de acabar com isso de tirar dinheiro da saúde e educação para dar ao carnaval”. Imediatamente pudemos fazer uso do microfone para refutar, de plano, mais essa asneira. Ora, não existe isso de tirar dinheiro da saúde ou educação para dar às escolas de samba. Um mínimo conhecimento em Direito Administrativo é suficiente para saber que isso não é possível. Afinal, quem o prefeito quer convencer? Pergunta-se se não dar dinheiro para as escolas de samba é garantia de mais creches e postos de saúde e o questionamento ficou no ar. Recentemente não tivemos desfile de escolas de samba e a pergunta continua: os problemas de saúde, educação e segurança foram resolvidos? O mesmo discurso foi adotado pelo Presidente da Câmara dos Vereadores. Diante disso, observa-se que não há interesse algum na participação do poder público em investir nas nossas escolas de samba. No entanto, o investimento tem que existir, não na sua totalidade, mas não pode deixar de ter, pois se trata de cultura e existe verba específica para isso. O gestor da cidade ainda não entendeu que escola de samba não são apenas 01 hora e dez minutos na Passarela Nego Quirido.

infraestrutura: o poder público inflou o discurso de que não teria verba para as escolas de samba, mas que participaria com a infraestrutura do desfile. Levou para a passarela vários comissionados, desviando todos de função, para fazer a faxina na passarela.

Um espetáculo midiático, porém desnecessário.

Ocorre que cheguamos para trabalhar na cobertura dos desfiles e antes de nos dirigirmos para a cabine de rádio, passamos no banheiro e pasmem: parecia que tinha passado um “tsunami” ali dentro, contrariando a fala do prefeito da capital que afirmou investir na infraestrutura. Banheiros sujos, portas quebradas e o pior: sem água. Sim, leitores, sem água! Higiene zero! Lamentável o cenário observado. Se era no início dos trabalhos, imaginem os leitores como estava no final da festa!

A Passarela Nego Quirido é local de reunião de turistas e não foram poucos vistos circulando pelo entorno do local procurando a entrada de suas respectivas arquibancadas, que por sinal não havia nenhuma indicação, apenas de camarotes. E lá estavam os banheiros sujos, sem água e alguns até sem luz.

Patrocínio do carnaval: uma cervejaria foi detentora dos direitos de patrocinar o carnaval da cidade, descaracterizando a nossa folia com a presença de músicas eletrônicas, funkeiros, enfim, qualquer coisa alheia ao samba no centro da cidade.

Em momento algum se questiona o gosto musical das pessoas, mas pensemos: passa-se o ano escutando músicas eletrônicas e funk, mas quando chega o carnaval, onde os sambas e as marchinhas ganham seu tempo para serem executados, o que somos obrigados a ouvir?

Bem, o patrocinador do carnaval não investiu nas escolas de samba, mas na Passarela do Samba Nego Quirido havia um camarote que recebia o nome da patrocinadora.

Até quando teremos que engolir este tipo de situação? Mais uma vez o samba foi preterido, pois o que se ouvia naquele e nos demais camarotes era qualquer coisa, menos samba ou marchinha. E não existe isso de “o carnaval evolui”. Ali não foi evolução, mas uma tentativa muito bem arquitetada para desqualificar a nossa festa e acabar com a nossa cultura. Ou lutamos, ou veremos a banda passar e o fim da nossa tradição.

Quando o prefeito anunciou que não teria dinheiro para as escolas de samba, não faltaram vozes histéricas falando que o prefeito estava certo, enchendo as redes sociais com essa bobagem eleitoreira. No entanto, adivinhem onde essa gente foi “festar” no sábado de carnaval? Sim, nos camarotes da Passarela Nego Quirido.

E o povo do samba tendo que engolir isso. Passarela do samba, no carnaval, é lugar de samba, marchinha…  Não moramos em Ibiza.

O pior, no entanto, aconteceu: tudo isso sob o olhar inerte da Liga das Escolas de Samba de Florianópolis, que se permitiu, por alguma razão ainda não clara, que o Município fizesse sua festinha às custas do sofrimento, dúvidas, tristezas e inconformismo das comunidades que a própria Liesf deveria representar.

O poder público não contribuiu financeiramente, não cumpriu sua parte prometida, que seria a infraestrutura na totalidade e a comunidade do samba teve que fazer milagres para colocar as escolas de samba na rua, num padrão muito aquém daquele que a cidade e os turistas estão acostumados a prestigiar.

Que as comunidades do samba cobrem de seus dirigentes uma postura mais ativa em relação aos verdadeiros interesses da nossa tradição, pois o slogan “respeitem nossa tradição” não combinou com o que foi permitido dentro da Passarela do Samba.

Que pelo menos na venda de camarotes se imponha que o estilo musical a ser executado tem que ter relação à cultura, seja samba, seja marchinha, afinal não é carnaval? Que tradição é essa que a Liesf está defendendo? Quem gravou vídeos pedindo respeito era para isso? Com certeza, não!

Afinal, a quem a Liesf está servindo?

Perdoem-me o longo texto, mas é um desabafo ainda inconformado.

Sandro Roberto

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