Resenha: CD Sambas de Enredo 2014 – RJ

vila isabel 2013Cedidas pela LIESA ao site Galeria do Samba, chegam aos nossos ouvidos as primeiras amostras do CD Sambas de Enredo 2014. A safra de sambas eleva o bom nível dos últimos anos. Em relação ao ano anterior, há mais obras de destaque e maior diversidade de estilos e opções estéticas, acontecimento raro e louvável, tornando o CD mais saudável aos ouvidos.

Sem novidades, o CD registra todas as obras sob a mesma fórmula, seja o samba alegre e marcheado ao estilo O tititi do Sapoti (Estácio de Sá 1987) ou um samba de lirismo comovente como Os Sertões (Em Cima da Hora 1976). Como tem sido feito desde 2010, há a tentativa de emular um clima “ao vivo”, com gravações de baterias e grandes corais. Tal padronização é um descalabro estético, que costuma funcionar melhor para os sambas medíocres e maltratar as grandes obras de cada ano.

Se nos últimos dois anos o protagonismo das safras tem sido de Portela e Vila Isabel, em 2014 o Salgueiro toma a vaga da escola do bairro de Noel na “dobradinha”. Cantando Gaia – a vida em nossas mãos, a vermelho-e-branco traz uma obra de estilo muito aguerrido e formato ousado: há apenas um refrão, central, enumerando orixás e um falso refrão ao final, criado com inteligente jogo de versos. As duas estrofes são suaves em letra e melodia. A segunda estrofe, com algum marcheamento, remete aos sambas que antigamente iam parar nos carnavais de salão.

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A Portela apresenta mais uma vez um samba de clima saudosista, criando algo novo a partir de parâmetros antigos. É, na opinião deste escriba, o grande samba do ano e o melhor da trilogia “retrô” portelense. O refrão “Vou de mar a mar, mareia / vou de mar a mar, mareia, mareou” é absolutamente irresistível. A melodia do samba baila sinuosa como as curvas pecaminosas de uma mulata carioca. É um samba para não esquecer!

A atual campeã Unidos de Vila Isabel ainda vive a ressaca da “Festa no arraiá”. Seguindo linha temática semelhante, o enredo trata da relação do homem com os biomas brasileiros. O samba é belo e tem poesia impressionante. Não fosse a má sorte de suceder um clássico, certamente seria mais festejado. Efeito inverso ocorre na Mocidade Independente: como os sambas fracos têm sido uma constante na escola, o bom samba de 2014 é festejado além de suas qualidades, embora deva-se frisar que é, de fato, uma bela obra, com forte identidade e criatividade musical.

A Imperatriz Leopoldinense surpreende ao cantar Zico, enredo que foge de sua tradicional linha histórica. Ao transformá-lo no guerreiro Arthur X dos gramados, criou terreno propício para boas metáforas em um samba marcante. Exaltando outra celebridade esportiva, a Unidos da Tijuca canta a velocidade e Ayrton Senna, com um samba que não é destaque, mas também não compromete. Tem como ponto alto o refinado refrão do meio, uma jogada de craque com muito estilo.

O samba da Mangueira tem letra bem construída e melodia que mescla o estilo tradicional da escola às tendências criadas pela Portela nos últimos anos. Na voz impecável de Luizito, a melhor interpretação deste CD, A festança brasileira cai no samba da Mangueira pode ser um dos destaques deste carnaval.

Os sambas de Grande Rio e União da Ilha não fluem em sua plenitude, com pequenos pontos de ressalvas, mas também não fazem feio. Pelo contrário, são duas obras vigorosas e com passagens cativantes. De escolas que devem brigar contra o rebaixamento, como Império da Tijuca e São Clemente, deveríamos esperar grandes sambas que as impulsionassem nessa luta. Infelizmente, o resultado é frustrante, com faixas frias e sambas abaixo da média, feitos sob medida para o peso das canetas dos jurados.

Se há alguma grande decepção no CD é, sem dúvidas, o samba da Beija-Flor. Cantando Boni, o astro iluminado da comunicação brasileira, a escola de Nilópolis só teve sambas tão ruins nos tempos em que, como a Globo de Boni, exaltava a ditadura. Versos como “Boni, tu és o astro da televisão (…) / mostra que babado é esse de samba no pé” só podem ser comparados aos bajuladores “Lembrando PIS e PASEP / e também o Funrural / que ampara o homem do campo / com segurança total”, daquele tempo em que “o Beija-Flor” afirmava que “Graças ao Mobral / todos aprendem a ler”.

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2 comments

  1. Gostei da análise, mas discordo com relação ao samba do Império da Tijuca. Na verdade minha opinião é bem contrária, acho que esse samba está junto com Salgueiro, Mangueira, Portela um nível acima de todos os outros. Por outro lado concordo plenamente em relação ao samba da Beija-flor, achei terrível e pra mim não se destacaria nem entre os sambas do Grupo de acesso que aliás tem boas obras, como Porto da Pedra, Viradouro… fora as boas reedições, que pra ser ainda mais cruel com a Beija-flor tem a Tradição reeditando um clássico da escola.

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