Samba de domingo: 1 + 1 + 1 + 1 + 1

O acompanhamento dos concursos de samba-enredo é sempre um aprendizado, infelizmente menosprezado por muitos amantes do gênero. “Se o samba perdeu, para que serve?” é frase recorrente. Oras, amigos! O samba não deixa de existir. Continua disponível para audição e execução.

Muitas vezes, o samba derrotado nos dá lições, traz questionamentos e, em alguns casos, apresenta superioridade avassaladora em relação ao vencedor. Nas décadas de 1970 e 1980 há inúmeros casos de sambas que não foram para a avenida mas, gravados por grandes artistas, caíram nas graças do público. Exemplos disso são “Estrela de Madureira”, imortalizado por Roberto Ribeiro e “Eneida, amor e fantasia – boi da cara preta”, sucesso na voz de Jair Rodrigues.

O samba de hoje foi concorrente na Unidos da Tijuca. O enredo de 2008 era sobre coleções. Foto: Saul Cunha.

O samba deste domingo é bem mais modesto. Não passou das primeiras eliminatórias no concurso da Unidos da Tijuca para 2008. Causou frisson nos fóruns de internet, o que não deve ter se repetido na quadra, considerando-se o resultado. Não pretendo discutir a qualidade da obra, nem fazer comparações com o samba vencedor. Parece mais interessante destacar que, em processos tão cheios de vícios como os concursos de samba-enredo, sobretudo do Rio de Janeiro, apareça uma obra tão corajosa.

Lula e Márcio Biju, compositores sem vitórias expressivas no currículo, apresentam um samba que enaltece o sentimento do colecionador. A escola se propunha a levar à avenida uma grande coleção e essa parceria enaltece, em primeira pessoa, a relação afetiva dos homens com os objetos. O samba mal começa e surge a ousadia mais óbvia: a tradução, em versos, de que a soma de “1+1+1+1+1” viram muitos e cada um tem um valor imensurável para o colecionador. A obra segue sutil e doce. O desfile foi uma coleção de coleções. Sabedores da impossibilidade de dar conta de todas em um samba, estes compositores destacaram as singularidades do valor sentimental dos objetos, utilizando termos que remetem a passagens do enredo: o ouro (moedas, talvez), os tesouros (mais variados), os passatempos de criança, os amuletos, os jardins, os museus etc.

Este é um samba intrigante, questionador. Traduz o enredo com perfeição sem abordar a sinopse tópico a tópico. Poderia proporcionar canto fluente sem ter melodia eufórica. É belo sem metáforas complexas. Os refrões, como todo o samba, fogem dos formatos convencionais dos anos 2000, que eram dois refrões de quatro linhas separando duas estrofes com oito a dez versos. Foi um tiro arriscado, de quem está mais preocupado em questionar o limite do que se pode fazer em um samba-enredo. E esse questionamento nunca deve sair de nossa mente. O impossível, o ridículo e o inviável existem, é claro, mas devem ser discutidos, postos em dúvida, justificados. Afinal, é muito fácil rotular o diferente e o que causa estranhamento sem refletir sobre o rótulo atribuído.

Compositores, quantos de nós já deixamos de fazer algo em que acreditávamos para seguir idéias pré-estabelecidas, sem sequer questioná-las? O papel de um samba como esse é mostrar que há mais caminhos do que comumente se imagina. E é importante que novas soluções recebam a devida atenção. Portela e Vila Isabel 2012 seriam sambas inaceitáveis há poucos anos. Foram resultado de vontades de mudança e novas perspectivas criativas apontadas ao longo de anos de disputas limitadas e formatos engessados.
O mundo sempre muda com a junção de ideias pontuais. São 1 + 1 + 1 + 1 + 1 que viram tantos…

Unidos da Tijuca – 2008 – Samba Concorrente  – clique para ouvir
Enredo: Vou juntando o que eu quiser, minha mania vale ouro. Sou Tijuca, trago a arte colecionando o meu tesouro
Compositores: Lula e Márcio Biju

Minha coleção de futcraques, da Copa de 1998

1 + 1 + 1 + 1 + 1…
Viraram tantos!
Podem ser milhões, não me distraio de nenhum
Essa é a razão da minha vida… e hoje canto
Minha coleção fala por mim!

Pois só eu vi
No mais simples o brilho do ouro
E percebi
Na loucura esse grande tesouro
Era tão criança e, se juntei, fiz pra brincar
Foi passando o tempo e eu não me canso de olhar…

Pra ali… revirando os meus amuletos
Pra lá… são 500 lembranças no peito

No carnaval da Tijuca tudo é raro e tem amor
Mesmo sentimento que declaro a quem guardou
Jardins vão preservar
Museus darão valor
Sempre foi, e é assim
Só cuidando da herança a História não tem fim!

Pavão, de azul e amarelo, pavão
Já dono do meu coração
Reúne mais 50 mil
Faz a coleção de quem viu
Seu desfile campeão!

Ao final da disputa, sagrou-se campeã a parceria de Júlio Alves, Sereno, Paulo Rios e Beto Lima. Seu samba, de construção inteligentíssima, saborosa pela minúcia das metáforas, conduziu a escola do Borel a um de seus mais brilhantes desfiles, obtendo a 5ª colocação.

 

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