Samba de Domingo – O manto azul num branco algodão

Nenê de Vila Matilde 2013

Fazia tempo que sentia falta da Nenê de Vila Matilde, de tantos grandes sambas, e de Santaninha, seu maior compositor, neste espaço dominical. Curiosamente, o samba que ouvi esta semana e me bateu “aquela vontade” de trazer para vocês não é mais uma das muitas vitórias deste grande artista e de sua escola. É a obra feita pelo gênio em parceria com Luizinho SP e Fabiano Sorriso para o carnaval de 2009, em comemoração aos 60 anos da azul-e-branco. Perdeu na final, mas merece presença na galeria dos grandes sambas de enredo.

Antes de comentar brevemente o samba, é preciso lembrar como foi a disputa da Nenê de Vila Matilde naquele ano. Completando 60 anos, a escola anunciou o enredo 60 anos, coração guerreiro – A grande refazenda do samba. Entre os concorrentes, surgiram quatro sambas com condições de se tornarem clássicos na maravilhosa galeria de sambas da Nenê e que, para completar o difícil cenário da disputa, tinham grandes nomes nas parcerias. Um deles ficou pelo caminho: era um samba solo do ótimo compositor Marco Antônio. Os outros três fizeram a final. Além deste que trago para vocês hoje, também foi derrotado na final o samba de Royce do Cavaco, intérprete da escola, em parceria com Formiga, Marcelo Zola, Gonçalves e Paulinho Farias.

O campeão era de um velho conhecido do Rio, tanto pelo talento quanto pela grande estrutura que mobiliza nas disputas: Cláudio Russo, que venceu também os sambas de 2010, 2011 e 2013, fazia sua estreia na Nenê em parceria com Marquinho, J. Velloso, Ney do Cavaco e Cláudio Tricolor. Cada uma das obras merece uma edição desta coluna. A vencedora, por exemplo, tem passagens geniais: os marcantes versos “Sabe por quê? O samba é o nome e o sobre nome é Nenê!” e uma melodia extremamente valente foram fundamentais para sua vitória – com um toque acariocado que, infelizmente, se tornou tendência nos anos seguintes.

Celeiro de bambas, a Nenê liderou a luta pela oficialização do carnaval de São Paulo e foi fundamental para seu crescimento. Infelizmente, o legado da escola da Vila Matilde é pouco conhecido em Florianópolis, talvez por causa do mau momento atual, mas seus desfiles e sua discografia são invejáveis. A obra de Santaninha, Luizinho SP e Fabiano Sorriso buscou um caminho mais doce que, a meu ver, traduz com precisão os valores de uma agremiação que foi a grande “Campeã do Século XX” (teve mais títulos até a virada do milênio).

Extremamente dolente, remete um pouco aos “sambas lençol” – extensos, que procuravam cobrir detalhadamente o enredo – mas o faz sem se tornar entediante. O samba começa descrevendo a paixão de Seu Nenê pela águia da Portela. Em seguida, traz uma variação melódica sensacional, com um verso longo, de métrica diferente e inesperada, em “Lembro do enredo Casa Grande e Senzala, a campeã foi ela”. Há uma bela referência a “dois amores de importância”, que acredito se tratar de Portela e Mangueira, pois a verde-e-rosa já foi homenageada pela Nenê em 1998 e um dos principais intérpretes e compositores da escola paulista foi o carioca Armando da Mangueira.

O que se segue é de uma sutileza que revela todo o afeto dos compositores pela escola: “e veio do Rio autorização / do manto azul num branco algodão / a nossa águia voa alto / só quem te conhece vê o céu no chão”. É disto que samba-enredo precisa! De versos que toquem o ouvinte, traduzam o sentimento do tema, mais do que citações de tópicos e alas. Na sequência, os momentos mais marcantes da história da escola são lembrados, com ênfase na africanidade da maioria de seus enredos.  O refrão do meio passeia por essa temática: lembra da cobra gigante, confeccionada com a mesma técnica dos dragões chineses, usada para representar Oxumaré em Sagração aos deuses, em 1984. Cita o “encanto, orgulho e vaidade” de Narciso Negro (1997), o Sonho de Candeia de 1981 e Palmares, raiz da liberdade (1982). É denso sem ser chato.

Bem… admito que a escolha deste samba para este domingo tem a ver com a “falta” da Coluna de Quinta. É um samba muito expressivo em cada verso, com variações perceptíveis até para os ouvidos menos atentos e uma narrativa muito clara. Por isso, em uma semana onde projetos pessoais consomem meu tempo, deixo vocês com esta bela obra para degustar nesta fria tarde de domingo.

Nenê de Vila Matilde
Carnaval 2009 – Samba Concorrente
Compositores: Santaninha, Luizinho SP e Fabiano Sorriso
Intérprete: Darlan

Tão majestosa, vem Nenê!
O grito forte da águia guerreira
Sou quilombola, Oxóssi é rei
60 anos que não são de brincadeira

Brilhou… na luz dos olhos de um menino
Que transformou o seu destino
Se fez sambista assim
Se encantou, sonhando ser igual a ela
A linda águia da Portela
No Largo do Peixe, fincou a raiz

Trilhando seu caminho, fez história
Seus bambas hoje trago na memória
Os seus valores não têm fim
Azul é meu sangue, és tudo pra mim

Lembro do enredo “Casa Grande e Senzala”, a campeã foi ela!
Entre dois amores de importância, a sua vida se tornou mais bela
E veio do Rio autorização
Do manto azul num branco algodão
A nossa águia voa alto
Só quem te conhece, vê o céu no chão

Oxumaré, Zumbi dos Palmares
Teu encanto, orgulho e vaidade
O sonho de um rei, “sonho de Candeia”
Brilha a “raiz da liberdade”

“Quando o cacique rodou a baiana”, você ouviu
A igualdade sonhada, sem luta não chegará
E temos um planeta pra cuidar
A nossa fonte não pode secar
A grandiosa união: fazer deste mundo um só coração
A águia enxerga o futuro
Vai refazendo a esperança
É a visão de um novo dia
Não morre um sonho de criança
Falar demais de ti é pouco!
É carnaval pra muitos carnavais
Inspiração pra muitas gerações
É musical pra muitos musicais

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