Samba de Domingo – Salis sapientiae, uma história do mundo

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O quadro “A última ceia” carrega simbologias complexas, como outras obras de Leonardo Da Vinci e de diversos renascentistas. À frente de Judas Iscariotes, o traidor que entregou Jesus Cristo, há um saleiro tombado. Desde a Idade Média, o desperdício do sal era considerado mau presságio, ligado a grandes catástrofes. Essa simbologia inspirou um dos versos marcantes do samba da Nenê de Vila Matilde de 2011, que contou a história do sal.

O tema é fantástico. Há tanta coisa bacana para falar sobre o sal e tantos recursos estéticos possíveis que o enredo da Nenê leva à inevitável pergunta: como ninguém pensou nisso antes? Quantas imagens bonitas, quantas histórias curiosas, quantos fatos significativos na trajetória da humanidade foram marcados pelo sal! E era tão óbvio: oras, se o açúcar já foi exaustivamente cantado pelas escolas de samba, como ninguém imaginou transformar o sal em enredo?

O samba do enredo Salis sapientiae – uma história do mundo foi composto por um time de feras que, em outros anos, estavam em três parcerias diferentes, todas muito fortes. A assinatura de Tonn Queiroz, Anderson Vaz, Fabiano Sorriso, Santaninha, J. Velloso, Cláudio Russo e Marquinhos corresponde à qualidade de um samba que, com sua leveza e simplicidade, consegue efeitos interessantíssimos e é a cara da Nenê.

A segunda parte do samba é exemplo de como o sucesso de determinado estilo, recurso ou caminho de composição depende muito do bom senso e bom gosto dos compositores. Escritos por canetas menos habilidosas, versos muito diretos para tratar de assuntos que não carregam beleza poderiam ficar muito esquisitos. Porém, passagens como “Sal de cada dia, fonte de energia / essencial à nação / mas atenção: o sal à vida faz o bem e o mal / em nosso corpo, tem função vital / seu exagero prejudica o coração” têm, no conjunto da obra, uma coerência enorme e soam diferentes… extremamente didáticos, mas de um jeito criativo, com uma melodia que sugere um clima interessante.

O que dizer do tom misterioso em “na tela, Da Vinci pintou / o saleiro tombado revela o traidor”? É simplesmente genial! Tudo na segunda parte parece convergir para o clímax ao lembrar que, no rebaixamento recente, a escola “suou, sangrou e até chorou”, em três atos em que o sal está presente. O refrão principal, que convida a provar do “tempero da Vila”, é simplesmente avassalador, um verdadeiro arrasa-quarteirão.

“Na tela, Da Vinci pintou… o saleiro tombado revela o traidor”

Infelizmente, o belo samba e o forte “chão” não bastaram e a comunidade matildense voltou a derramar lágrimas de sal. Com um desfile problemático, a tradicional azul-e-branco ficou na 13ª colocação e voltou ao Grupo de Acesso no carnaval de 2012.


Salis Sapientiae – uma história do mundo
(Tonn Queiroz/Anderson Vaz/Fabiano Sorriso/Santaninha/J. Velloso/Cláudio Russo/Marquinhos)

Vem provar do meu tempero
Minha Vila tem sabor
Vem ver como é que é
Quem tem samba no pé
Minha águia, meu amor

Voando nessa poesia
Nenê vem contar uma história do mundo
Com graça, estilo, elegância
No balanço do samba, a riqueza do sal
Descrito no livro sagrado
Foi a punição, o castigo ao pecado
Na Antiguidade, a chama do fogo
Fez o homem despertar
Era o início da procura ao paladar

Ao faraó… a eternidade
Na China, o valor comercial
Soldado de Roma recebeu o salário
Com o sal no Olimpo se fez ritual

É sabedoria no batismo do cristão
Feito aliança, celebrado em comunhão
Na tela, Da Vinci pintou…
O saleiro tombado revela o traidor
Soberania, uma obra do destino
Foi concedido o direito à exploração
Daí então o mineral se extraiu
Da pátria amada, idolatrada, mãe gentil
Sal de cada dia, fonte de energia, essencial à nação
Mas atenção: o sal à vida faz o bem e o mal!
Em nosso corpo, tem função vital
Seu exagero prejudica o coração
Superação… comunidade matildense em união
Suou, sangrou e até chorou
Agora em festa, a Zona Leste que voltou!

 

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