Samba de Domingo – Seca no Nordeste

seca no nordeste

Para 1961, a pequena Tupi de Brás de Pina, em seu sexto carnaval, escolheu a Seca no Nordeste como enredo. Em um universo de temas povoado por motivos patrióticos e grandes personagens da história oficial, a escola abordou um dos problemas mais tristes de nosso país. Naquele distante ano, a Tupi conquistou o vice-campeonato do Grupo 2, voltando a desfilar entre as grandes no ano seguinte. O resultado, contudo, é irrelevante diante do feito dos compositores Gilberto Andrade e Waldir de Oliveira, que eternizaram a escola, extinta em 1998, na galeria dos grandes clássicos da história do samba-enredo.

Em 1961, ainda não eram gravados discos de sambas de enredo. Se esta bela obra não se perdeu no tempo, isto se deve em grande parte a Jamelão, que lançou um LP com sambas de quadra e os sambas de enredo das campeãs e vices dos grupos 1, 2 e 3. Lá estava “Seca no Nordeste”, em uma versão emocionalmente avassaladora. Posteriormente, foi gravado por outros grandes cantores, como Clara Nunes, Abílio Martins e Fagner, mas a gravação de Jamelão é de uma carga sentimental incomparável, não apenas pela voz indefectível do maior dos intérpretes, mas também pelas escolhas de produção.

A seca é um problema que remonta aos tempos do Império, quando a transposição das águas do Rio São Francisco já era discutida, apesar de até hoje permanecer inconclusa. No entanto, em vez de apresentar aspectos históricos, a escola e seus compositores optaram por focar a narrativa na relação do homem com a seca. Não é preciso ter o coração muito mole para se emocionar com as imagens fortes que foram criadas a partir dessa escolha.

Começa o samba e, na gravação de Jamelão, ouvimos apenas as pastoras, em tom de lamento, descrevendo um cenário de enormes dificuldades: o sol escaldante, a terra poeirenta, a ausência da chuva, que se perpetua por “dias e dias, meses e meses”, expressões que dão a sensação de permanência do fenômeno. Neste cenário, o “pobre lavrador”, sem recursos, munido apenas de uma “ferramenta rude”, ainda tenta trabalhar no “solo duro”. Parece então que o calor do sol sobre nossas cabeças nos leva a um delírio no qual o lavrador e o solo gemem a cada pancada. O “ôô ôô” que se segue é de uma dolência inacreditável, entoado como um gemido. Dificilmente algo soará tão belo, expressivo e triste em um samba-enredo novamente.

A seca é implacável. Geme o lavrador, geme a terra, mas o lamento de nada adianta. A voz retumbante de Jamelão surge na gravação para anunciar que aquelas gargantas secas e peles maltratadas chegam ao auge de seu desespero, impotentes diante do caos. Enquanto alguns se revoltam contra Deus, outros rezam com fervor, clamando: “nos livrai dessa desgraça!”. A dramaticidade da voz do intérprete mangueirense carrega ainda mais a tinta de cada palavra. A marcação pesada da bateria acentua os sentimentos, como um fardo nas costas do sertanejo e de seu gado sedento.

Se todas essas imagens ainda não forem suficientes para emocionar o ouvinte, chega o momento épico da  redenção: chove no coração do Brasil! Não é uma simples chuva, é uma transformação drástica no cenário. O céu azul onde impera um sol escaldante de repente escurece e as nuvens surgem tão monumentais que parecem grandes rolos de fumaça. Neste momento tão esperado, o homem, os animais e a natureza se unem em júbilo. O lavrador retira seu chapéu. As lágrimas e a chuva correm pelo seu rosto. Um novo “ôôô” finaliza a narrativa, agora como um canto otimista, que parece ser entoado pelo mugido alegre do gado. A água lava a alma e leva embora o sofrimento. É uma guinada apoteótica!

Mais de 50 anos se passaram e o samba da Tupi ainda é lembrado, principalmente no mundo do samba carioca. Foi um dos primeiros enredos a tratar de tema que não exalta a nação e não é narrado pelo viés histórico. Se tornou inesquecível porque tem aquilo que é essencial a um bom samba-enredo: imagens que tocam o coração das pessoas. Num misto de tristeza e alegria, de dificuldade e superação, traduziu com força inigualável uma realidade que infelizmente permanece atual em nosso país em 2013. Para o agricultor brasileiro, nem tudo é “festa no arraiá”.

G.R.E.S. Tupi de Brás de Pina – Carnaval de 1961
Seca no Nordeste
(Gilberto Andrade/Waldir de Oliveira)

Sol escaldante, terra poeirenta
Dias e dias, meses e meses sem chover
E o pobre lavrador
Com a ferramenta rude
Dá forte no solo duro
E em cada pancada parece gemer

Ôô ôô ôô ôô
Geme a terra de dor
Ôô ôô
Não adianta meu lamento, meu senhor
Ôô ôô ôô ôô
E a chuva não vem…
O chão continua seco e poeirento

No auge do desespero
Uns se revoltam contra Deus
Outros rezam com fervor
Nosso gado está sedento, meu senhor!
Nos livrai dessa desgraça!
O céu escurece
As nuvens parecem grandes rolos de fumaça
Chove no coração do Brasil
O lavrador retira seu chapéu
E olhando o firmamento
Suas lágrimas se unem com as dádivas do céu
O gado muge de alegria
Parece entoar uma linda melodia

Ôô ôô ôô ôô ôô
Ôô ôô ôô ôô ôô

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