Samba de Domingo – Sou Império, sou patente, só demente é que não vê!

Último título do Império Serrano, em 1982
Último título do Império Serrano, em 1982

O Império Serrano é dono de um dos mais fabulosos acervos musicais da história do samba-enredo. Até mesmo seu orgulho ferido por um rebaixamento se tornou motivo de inspiração para uma composição brilhante. Um samba aguerrido e pouco conhecido em nossos dias levantou a auto-estima da escola para o desfile no Grupo de Acesso em 1992.

Em 1991, o Império Serrano viveu o pior momento de sua história, ao realizar um dos mais horrorosos desfiles que a Marquês de Sapucaí já viu. No abre-alas, Sula Miranda encimava a coroa imperiana com dois faróis cobrindo os seios, resumindo a tragédia que seria o difícil enredo sobre caminhoneiros. Vários caminhões compunham o desfile, escondendo apenas a marca do fabricante, numa solução visual de gosto bastante duvidoso. Entre fantasias de refinarias, bombas de gasolina e placas de carros, as pretensas inovações levaram a escola da Serrinha a um impactante rebaixamento, após o qual nunca mais se estabilizou no Grupo Especial.

A escola escolheu para o ano seguinte o enredo “Fala, Serrinha! A voz do samba sou eu mesmo, sim senhor!”. O tema tentava dar um “carteiraço” na disputa por uma vaga na elite do carnaval carioca, exaltando as principais glórias da agremiação. Não era uma daquelas auto-exaltações chatas, em que o desfile é uma lista de enredos anteriores. Mais do que os desfiles antigos, era o conjunto de referências que unem os amantes do Império Serrano em torno de um sentimento comum que interessavam na proposta da escola. Eram diversos aspectos da identidade imperiana transformados em enredo.

O samba, de Beto Sem Braço, Jangada e Maurição, supera as expectativas do enredo e não só evoca a identidade imperiana, como o faz de maneira “marrenta”. Logo nos primeiros versos, a escola avisa que irá provar a sua tradição e rebate o rebaixamento: “pouca coisa não vai nos jogar no chão”. Aqueles que não entendem os valores da verde-e-branco são tratados como ingratos que não reconhecem as contribuições do Império ao carnaval. O tom de desafio é imposto a cada verso. Antes de enumerar alguns feitos históricos, como a introdução de alguns instrumentos na bateria e o tetracampeonato (1948-1951), um belo jogo de ideias diz, com uma melodia com toque de tristeza e ressentimento: “eu vou enxugar com a sua ingratidão/meus pés que vão suar de poeira/toda a criação que eu criei foi pra brincar/se não lembrar, é brincadeira”. Este tom crítico à diminuição da espontaneidade nos desfiles fez sucesso dez anos antes, no clássico “Bumbum paticumbum prugurundum”. Não é apenas uma “dor de corno”, mas um discurso historicamente assumido pela escola, de guarda da tradição e resistência às inovações nocivas à valorização dos fundamentos do samba.

Ao lembrar Silas de Oliveira, o “Viga-Mestre”, compositor de clássicos como “Aquarela Brasileira” e “Heróis da Liberdade”, o samba traz um refrão que não propõe a explosão, mas a emoção. O registro é baixo em relação à melodia dos versos anteriores, num efeito muito bonito, como num lamento ou oração, num tom sobrenatural. O recado vem dos céus e é dado baixinho, para tocar o coração do componente. “Lá do céu, o Viga-Mestre nos pediu / em sua filosofia / pro Império não parar de entoar / seu canto de euforia”.

Esse tipo de variação é recorrente nas composições que levam a assinatura de Beto Sem Braço, compositor de vários sambas marcantes. Ouvir seus sambas é fundamental para ampliar horizontes estéticos na atualidade, quando vivemos uma “ditadura do agudo”. As passagens graves e dolentes, adequadas ao sentimento que se pretende transmitir no conjunto de letra e melodia, são viciantes, marcantes e foram quase sempre cantadas a plenos pulmões pelos componentes. A melodia deste samba nos remete diversas vezes ao estilo de composição de Beto na década de 1980, principalmente “Bumbum paticumbum prugurundum” (1982) e “Samba, suor e cerveja, o combustível da ilusão” (1985). Se foi uma auto-homenagem, é merecidíssima a esta referência do Império Serrano.

Os versos finais alertam ao júri a importância que teria uma vitória, afinal seus fãs iriam “chorar saudade” ao não lhe ver desfilar no “seu” grupo. O Grupo Especial seria, portanto, uma espécie de propriedade do Império Serrano. Sem sua presença, não teria a mesma graça. É, imperianos, vocês estavam certos e é tão fácil enxergar isso até hoje… “só demente é que não vê!”

O “carteiraço” não deu certo e o Império Serrano alcançou a terceira colocação, com pontuação muito abaixo das duas escolas que subiram de grupo. Conquistaria o vice-campeonato apenas no ano seguinte, com outra auto-exaltação – “Império Serrano, um ato de amor” – retornando ao Grupo Especial em 1994.

Fala, Serrinha! A voz do samba sou eu mesmo, sim senhor!
(Beto Sem Braço/Jangada/Maurição)

Avante, imperianos!
A luz de Deus iluminou a Serrinha
Viemos cantar, sambar
Mostrar, provar a nossa tradição
Pouca coisa não vai nos jogar no chão

Nos olhos da claridade
Até cego tem poder
Pior cego é aquele
Que enxerga e não quer ver

Fiz meu pedestal
Ilustrei o carnaval, “etcétera e tal”
Eu vou enxugar com a sua ingratidão
Meus pés que vão suar de poeira
Toda a criação que eu criei foi pra brincar
Se não lembrar, é brincadeira
Do prato, reco-reco, agogô
Que até hoje levantam seu astral
O primeiro destaque do samba surgiu
Em minha pauta musical
Com miçangas e paetês, bordei meu nome
Nos braços do mais belo carnaval

Lá do céu, o “Viga-Mestre” nos pediu
Em sua filosofia
Pro Império não parar de entoar
Seu canto de euforia

Lembrar as glórias da corte imperial
Quatro anos de vitórias sem igual
(E assim) Atravessei fronteiras
De emoção, fiz turista chorar
Meus fãs vão chorar saudade
Em não me ver no meu grupo desfilar

Sou Império, sou patente
Só demente é que não vê
Do samba, sou expoente
Abra meu livro pois tu sabes ler!

 

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